Amigos do alheio

Roubaram uma ponte na Índia. Ok, isso já faz algumas semanas, mas nem todo mundo leu a notícia. Uma ponte inteira foi roubada à luz do dia. Os moradores do bairro, obviamente miserável, acharam que era alguma obra do governo e ficaram quietos. É claro que a ponte não foi levada de uma vez. O bando se revezou durante três ou quatro dias até surrupiar totalmente a construção. Pedaço por pedaço, num desenho ilógico.

A notícia chama a atenção até mesmo no Brasil, onde os administradores aperfeiçoaram as técnicas do surrupio. Somos, afinal, o exemplo perfeito de um povo pragmático. Para evitar a trabalheira de desmontar a obra, nem construímos – mas embolsamos a verba, que já estava orçada mesmo. A primeira pessoa do plural, no caso, não é confissão nem identificação. É só questão de estilo.

Não sei se com todo mundo é assim, mas no final da adolescência afanar coisas alheias dava emoção e até um certo charme à vida. Tenho amigas que eram especialistas em abastecer suas bibliotecas com livros extraídos das livrarias ao redor da PUC. Não sei qual era a técnica, mas funcionava – com elas.

Uma amiga queridíssima só desistiu da ladroagem quando pegou nas mãos o volume então recém-lançado de A Montanha Mágica, de Thomas Mann. O catatau, de quase mil páginas, era inexpugnável como um Himalaia. Ficou na livraria, esperando quem o adquirisse de maneira lícita.

Eu até tentei me tornar uma versão mal traduzida de Arsène Lupin, o ladrão de casaca da literatura, mas a tentativa redundou em fracasso e vexame numa livraria da Rua São Bento. Forçando muito a memória, acho que era um romance de Virginia Woolf.

No começo dos anos 1980, quem morava em Paris era conduzido à vida do crime pela força do destino. Naqueles anos loucos, os franceses preferiam ser roubados a chamar a polícia. Lembro de um rapaz paranaense que lotou o casaco com garrafas de vinho num supermercado da Place d`Italie. Ao sair da loja, foi parado pelo segurança, que queria revista-lo. Como bom meliante vindo de exuberante país tropical, o rapaz sabia que a lei francesa só permitia a policiais fazerem a revista. Ulalá! O supermercado não queria uma viatura plantada à porta e o rapaz saiu feliz da vida. Só não correu pra não derrubar as garrafas pela rua.

Hoje uma serelepe avó do centro-oeste brasileiro, uma outra amiga que morava em Paris me deu verdadeiras aulas de como abastecer a casa sem desembolsar um franco.  “Só pegue o que tiver dinheiro no bolso pra pagar”, ensinava a mestra. “Essa caixa de chocolate, tá vendo?”, ela mostrava a embalagem gigante de bombons de grife. “Juntei o  dinheiro pra comprar, mas achei muito caro. Coloquei no fundo do carrinho e trouxe pra casa”. Além do dinheiro, era preciso ter sangue frio e uma cara de honesto à toda prova. Eu sempre rodava nesse quesito, pois estampava nos olhos o aviso de “Estou roubando! Olhem pra mim, estou roubando!”

Ninguém ganhou de uma estudante brasileira que morava aos trancos e barrancos na capital francesa. Necessitada de um colchão, dirigiu-se a uma loja tipo Leroy Merlin e encontrou o que queria. Enrolou o colchão de espuma e saiu com ele nos braços. Consta que o segurança, inclusive, segurou a porta de vidro pra ela chegar à rua. Ousadia? Pode ser. Mas quem imagina que uma mocinha frágil roubaria um colchão?

São casos de um passado quase lendário. Tempos do chamado período romântico da gatunagem. Hoje, a piada perdeu a graça. Morre-se por um tênis de marca ou um celular xing-ling. Rouba-se em todas as esferas sociais. O secretário de saúde que se aproveita da pandemia para afanar o dinheiro de respiradores já superfaturados e o pé-rapado que mata um estudante por causa de um telefone se igualam em sua baixeza e falta de humanidade. A diferença é que o secretário pilantra vai dispor de um advogado caríssimo e esperto, enquanto o pé-rapado, com muita sorte, vai conseguir um defensor público cheio de processos para cuidar. Formamos um país de castas.

Mães do reclame

A vida coloca três cascas de banana no caminho de quem é solitário, órfão ou ateu: o dia dos Namorados, o dia das Mães e o Natal. São três ocasiões em que a melancolia fica à espreita, com a certeza de uma boa colheita.

Do trio, a menos daninha é a data dos casais apaixonados. Quem estiver sozinho, sabe que se livrará dos shoppings abarrotados e dos restaurantes lotados – e que, se tiver um bom smartphone, encontrará companhia nos aplicativos da vida.

Natal e Dia das Mães são diferentes. Essas datas não exigem apenas companhia, mas companhia feliz. Companhia feliz e vitoriosa. Feliz, vitoriosa e endinheirada. Arrisque sair do molde pra ver o que acontece. Nas publicidades da TV, ceia de Natal nunca termina em bate-boca e filho nunca quebra a cabeça pensando numa lembrancinha que não pese no orçamento.

Quando tentam nos convencer que nas lojas existem presentes para todos os tipos de mãe, as propagandas fazem questão de esquecer que nem todo filho é o rei da cocada preta. Na vida real há, por exemplo, os filhos desatentos – nos comerciais, nunca. Filho de propaganda nunca erra o tamanho da roupa nem se atrapalha com a cor preferida. Se bobear, ele sabe de bate-pronto a idade do pai e da mãe.

Experimente passar uma dessas datas em trânsito. Imagine ser um turista em São Paulo hoje, na hora do almoço. Você não conhece ninguém na cidade. Pra complicar: seu hotel não tem restaurante nem serviço de quarto. Ou você se conforma com a picanha vegetariana do McDonalds ou, opção mais saudável, passa num supermercado e compra muitas frutas. Restaurante, nem pensar, tudo com gente saindo pelo ladrão.

Na ânsia descontrolada de mimar as mães, os filhos arrancam a matriarca da cozinha e a arrastam para intermináveis filas em restaurantes barulhentos. Muitas vezes, intimidada, ela faz questão de não pedir o prato mais caro do cardápio. No seu dia, a mãe nem sempre come tão bem quanto mereceria. Algumas mal escolhem o prato, deixam que o filho se encarregue. E todo mundo volta pra casa pensando que a lasanha da mamma é muito melhor.

As campanhas publicitárias enxergam apenas as mães tradicionais, as donas do lar, rainhas do castelo, donas da pensão. A ironia com que se metaforiza a figura materna vem sempre embrulhada com o lacinho azul petróleo do machismo. A mãe da vida real trabalha fora, almoça em restaurante por quilo de segunda a sexta e, mesmo que ela jamais confesse, está enjoada daquele perfume de todo ano. Filhos de todo o mundo: virem-se.

Memorial da Covid: Três Meses

Fabrício, o endocrinologista, me viu na recepção do consultório e pareceu sorrir (estávamos de máscara, obviamente): “Você merece um abraço”, disse ele. Me deixei abraçar porque entendi o recado. A última vez que nos vimos, no comecinho de fevereiro, eu exibia no corpo as marcas da Covid-19. Três meses depois, a história se desenha outra.

Nos últimos noventa dias, as sessões de fisioterapia foram quase diárias e a ideia de caminhar pelas ruas do bairro beirava a mais lisérgica utopia. Presente do Arnaldo, uma cadeira de plástico me aguardava toda manhã para o banho. O oxímetro já se tornara uma extensão de meus dedos. Aos poucos, muito lentamente, esses objetos foram sendo postos de lado e as fronteiras do mundo começaram a se alargar. Subir a pé até a Paulista já não era delírio.

O primeiro apetrecho a sair da lista foi o cateter de oxigênio. A título experimental e por orientação médica, tentei dormir algumas horas sem ele. Dormi uma noite inteira, feito um anjo. Veio a segunda noite. E outra. Antes que o concentrador de ar tivesse o mesmo destino das bicicletas ergométricas que acabam virando cabide, devolvi tudo para o home care. Faltou uma cerimônia de adeus.

Nesta altura, a cadeira perto do chuveiro foi se tornando obsoleta. Começava a experiência do banho. Nas primeiras duas ou três vezes, as pernas fraquejaram, ameaçando não dar conta de sustentar o corpo sob a água quente. As mãos tentavam se entender com o chuveirinho, o xampu e o sabonete. Mas correu tudo bem. O primeiro banho sob uma ducha de verdade é uma volta olímpica ao redor de você mesmo. Olímpica e vitoriosa.

Talvez o mais difícil nesses meses tenha sido colocar a paciência em prática. Não se pode ter pressa durante a recuperação de doença alguma, mas a Covid tem mania de gincana: sempre aparece um novo desafio pra encarar. O fôlego está ótimo, mas do nada uma rateada faz você lembrar dos estragos que o vírus deixou no seu corpo.

Não dá pra ser otimista em tempo integral, nem tem cabimento. Nas conversas, paira o medo dos efeitos colaterais inesperados – e que só dão as caras quando está todo mundo de bem com a vida. Músculos ainda entorpecidos, batimentos cardíacos sob vigilância, pulmões meia-boca e a memória, bom, que é que tem mesmo a memória?

Tudo é motivo de susto. Você acorda de madrugada com a respiração curta e uma sensação estranha na boca: a Covid voltou! Calma. Espera. Vai no banheiro, toma uma água. Viu? Era a umidade do ar baixíssima em São Paulo. Volta a dormir, criatura.

Até agora, o balanço do primeiro trimestre é positivo. Recebi autorização para trabalhar. Posso também voltar às atividades físicas regulares na academia – “Recomeçando totalmente do zero”, alerta o pneumologista. É ele, o bom Ricardo, quem vai me lembrar ao longo do próximo semestre que a luta não acabou. Tenho exames periódicos a fazer e apresentar. Antes de dezembro, não posso me considerar de alta. Mas estando na lista dos vivos já me sinto no lucro.

Mundo cão

Nas ruas e parques, na casa dos amigos, nos posts dos conhecidos, em qualquer lugar os sinais são claros demais para ser tirados de contexto: mais que preferência pessoal, gostar de cachorro é obrigação social. É o décimo-primeiro mandamento, Moisés apenas esqueceu de incluí-lo nas tábuas recebidas de Deus. Mas a vida tem surpresas.

A sociedade precisa amadurecer e aceitar o fato de que circulam pelo planeta pessoas que não amam cachorros – este cronista, por exemplo. Não importa a espécie e o tamanho, a cor dos pelos ou a carinha de fofos, desgosto de qualquer ser que lata, uive ou abane o rabo cada vez que vê o dono.

Nem adianta os caniners tentarem colocar panos quentes numa relação tão conturbada. Comigo não cola. “Ele só quer brincar”, diz a dona de um labrador enorme e eufórico, como todo labrador. Acontece que eu não quero. “Ele não morde, só quer te cheirar”, diz o outro. Mas o que eu não gosto é justamente ser cheirado por um cachorro!

Não amar os cães é quase tão grave quanto não gostar de Ayrton Senna, ignorar jogos de vôlei e não assistir programa de calouro com nome em inglês. As pessoas não aceitam. Você precisa ter sempre uma desculpa engatilhada. É muito cansativo.

Já tentei levantar o tema na terapia, mas a coisa não vingou. Acho que minha analista gostava de cães. Cheguei a lembrar de um trauma envolvendo um cachorro bravo latindo em minha direção, quando eu estava no colo da minha mãe… Mas, sinceramente, não sei se é fato ou fake. Pode ser apenas um truque da minha imaginação tentando livrar a cara.

Tenho de reconhecer que a coisa já foi pior. Eu tinha pavor de cães. Gelava ao ouvir um latido. Aos poucos, fui domando o medo e hoje já caminho na mesma calçada que “eles”, quase à vontade. Ainda não atingi o nível de entrar no mesmo elevador que um cachorro – mentira, entrei uma vez, mas pedi que o dono carregasse o pet no colo. Era um poodle, foi fácil.

A adrenalina passou a correr menos por minhas veias conforme os cães pararam de só receber ordens. Na minha infância, cachorros viviam sob o signo do imperativo: “Senta! Pega! Isca! Isca!” – e lá ia o Duque atrás da visita no portão. Hoje, se você gritar “Morto!” pra um cachorro na rua, é capaz de alguém chamar a polícia porque você está levando o animal à depressão.

A cachorrada atualmente não é de receber ordens, mas de estimular o diálogo. Pelo menos, por parte dos donos. Cansei de ver por aí gente que conversa com seus pets com mais gentileza do que quando se dirige ao porteiro do prédio. “Vamos atravessar a rua agora, filhinho?” é uma das frases mais ouvidas no meu bairro – até onde eu saiba, sem resposta.

O filhinho da frase é um cachorrinho espevitado, mais interessado em carimbar o próximo poste do que em aprender a falar a língua do dono. Mas aí vai aparecer alguém clamando que sim, eles falam, eu é que sou incapaz de ouvir. Pode ser. Deixa quieto. Os cães têm o espaço deles, eu tenho o meu e nenhum de nós é culpado pelos donos que aparecem.

Apenas reconheçam que é preciso muita coragem para vir a público assumir que não se gosta de uma das paixões mundiais. Mas chega! Abaixo a caninonormatividade! Chega de coleiras! Por um mundo em que os que não gostam de cachorro possam sair dos armários das rações sem se sentir condenados às chamas dos sete infernos.

Uma Páscoa qualquer

Eu era bem criança, tinha uns 6 anos, quando conheci a Páscoa pessoalmente. Ela morava em frente à casa para onde mudamos pouco antes de meu irmão nascer. Era uma rua de terra batida e a luz elétrica ainda não chegara ao bairro. À noite, entre velas, fogueiras e vagalumes, trocávamos ideias com a vizinhança. Nasceu daí a grande amizade da Páscoa com a minha mãe.

A Páscoa também tinha mãe. Era dona Hermínia – ou Ermínia, nunca soube a grafia do nome dela-, famosa por ser benzedeira de mão cheia. Dor de cabeça, estômago virado, febre, mau jeito, olho gordo, não havia moléstia que dona Hermínia (ou Ermínia) não desse conta. Até hoje, quando sinto o perfume de arruda, me vejo sentadinho na casa dela, recebendo gotas de água benta na cabeça entre murmúrios de oração.

Páscoa foi a primeira mulher que vi usando peruca fora da TV. Até então, os cabelos femininos do meu cotidiano eram passados a ferro, como os das minhas primas,  ou trincavam de laquê, como os da minha madrinha. Páscoa, não. Páscoa usava perucas, mas não por vaidade, longe disso.

Anos antes de nos conhecermos, ela era operária de uma tecelagem que garantia muitos empregos no Jaçanã. Certo dia, um tear prendeu os cabelos da mocinha e arrancou boa parte de seu couro cabeludo. Por isso, a peruca, que Páscoa só retirava no quarto, longe de todos. Minha mãe era das raras pessoas autorizadas a entrar nesses momentos, mas jamais falou algo a respeito.

Nunca mais soube da Páscoa. Dela ficaram alguns traços, a lembrança da peruca com franja, a silhueta magra, a voz discreta, a sina de solteirona. Ela ingressou naquele universo de pessoas que vão se apagando das nossas vidas, pelas mais diversas e involuntárias razões. Um muda de bairro e nas visitas esporádicas nunca procura a antiga vizinha. Quem fazia a ponte entre nós morre e as informações se tornam mais escassas. Vão sumindo, sumindo, até se apagarem de vez.

São figuras da nossa vida que a chamada grande História não registra. Não há quem guarde delas sequer uma imagem. Às vezes sobra uma foto que vai perdendo a identificação ano após ano. “Quem é esta ao lado da vovó?” Ninguém lembra. Os filmes caseiros também não garantem a sobrevida da memória. No fim das contas, somos um acúmulo de figuras diluídas, por mais queridas que sejam.

Nessas horas, acho estimulante ter o dom de escrever. O dom e a vontade, claro. Com os caquinhos desconjuntados da memória acabo preservando figuras sobre as quais não teria mais onde pesquisar. Sem provas reais, baseado apenas na fumaça das lembranças, caminho para me tornar um memorialista da pequenice.

A dama e o emaconhado

Na aurora da minha vida, duas lições eram marteladas com insistência no ouvido dos meninos: um homem nunca deixa a mulher que o acompanha do lado externo da calçada, pra não ser acusado de “vender” a moça. E, principalmente, um cavalheiro nunca-jamais-em tempo algum pergunta a idade de uma dama. Era quase uma lavagem cerebral.

Eis que, ao longo da semana, foi justamente a idade da escritora Lygia Fagundes Telles, falecida no dia 3, que virou tema de fuxico nas redes sociais. O motivo foi a descoberta de um pesquisador em documentos antigos: Lygia não tinha os alegados 98 anos de idade, mas 103. Faria 104 na semana que vem. Não me espantei.

Há quatro décadas, quando a entrevistei pela primeira vez, Lygia já escondia a idade. “Sou do mesmo ano do Paul Newman”, me disse, marota. Como não havia Google pra uma consulta rápida, deixei a informação pra lá. Semana passada, descobri que a escritora mentira. Paul era de 1925. Lygia, sabemos agora, era de 1918. Ri comigo mesmo. 

Qual escritora não vive de reiventar a vida? Lygia Fagundes Telles recriou a própria idade, pronto, e daí? Inventou e morreu feliz da vida. Talvez nem ela soubesse mais a idade real. Cheguei a pensar que fosse um comportamento comum em mulheres de gerações mais antigas. Mas um grupo de amigas – bem mais jovens que Lygia – me mostrou que nem toda garota revela seus segredos assim, de bobeira.

Entrevistei a escritora várias vezes, desde meados dos anos 1980, quando era um serelepe repórter da Folha. Fui eu quem, num plantão de sábado, 14 de junho de 1986, contei a ela da morte do escritor argentino Jorge Luís Borges. A pauta era repercutir o falecimento, mas tive que tirar Lygia da lista, pois ela realmente ficou abalada e não conseguiu formular uma declaração.

Alguns anos depois, já no final da década, escrevi a reportagem de capa da revista Veja São Paulo, sobre a grande dama paulistana das letras. Foram quase duas semanas de visitas e conversas no confortável apartamento da escritora, nos Jardins. Quando a revista saiu, num domingo, ela me ligou. “O porteiro do prédio descobriu que eu era famosa e até está me olhando com mais respeito”, brincou ela.

Durante os dias de apuração, não tive coragem de contar pra escritora que seu apartamento, no final da Rua da Consolação, me trazia lembranças bem pouco literárias. No andar de baixo, morava minha amiga J.C. – a primeira amiga rica que fiz nos até então 19 anos de rapaz da periferia.

Num aniversário da J., num friorento mês de agosto, rolou uma festa no apê. Lá fui eu, depois de apanhar dois ônibus. Entre os convidados, estava a trepidante G., que eu admirava bastante, “hormonicamente” falando. No meio da festa, G. chamou a mim e dois amigos dela pra ir no apartamento de cima, que estava em reformas. “Vamos fumar um baseado”.  Acho que era assim que se dizia.

Eu era bem inocente em certas coisas. Maconha, por exemplo, nunca tinha experimentado. Era medo do que a “erva maldita” dos programas policiais poderia me causar. Enquanto um deles enrolava e acendia o cigarro, eu já me via enveredando pela senda do crime, para tristeza de minha mãe viúva.

Por entre os escombros do apartamento comprado por Lygia Fagundes Telles dei minhas primeiras tragadas na marijuana. Pensando bem, foi minha primeira vez com um cigarro de qualquer espécie. A minha tensão era tanta que não senti efeito algum. Careta e cagão, voltei pra casa com meu sigilo.

Anos depois, os segredos empataram. Nunca contei da travessura no apartamento em obras nem Lygia me revelou sua verdadeira idade. Tal qual a anônima personagem do conto Pomba Enamorada (meu preferido – e do José Saramago também), Lygia e eu fizemos boca-de-siri. Olhamos o horóscopo, não podia ser melhor, e fomos, cada um em seu caminho.

Ordem no cafofo

Ando num jogo de cerca-lourenço com as gavetas daqui de casa. É sério, a coisa ficou feia no quesito. Aparentemente quietinhas no seu canto, gavetas traduzem com fidelidade o tumulto recente de seus donos. Só pra dar um exemplo pessoal, a das meias parece o último baile de carnaval antes da Aids: ninguém é de ninguém, o futuro a Deus pertence e na quarta-feira voltamos a conversar – caso nos reencontremos, claro.

Toda vez que passo por ela, ou seja, todo santo dia, o pensamento é um só: “Preciso dar um jeito nisso.” Na juventude, ouvi de uma conhecida: “Se você diz ‘preciso fazer’, é sinal que vai adiar a coisa. Ou faz ou não faz”. A lição ficou – na teoria. Não sei bem o que estou esperando, um sinal divino ou uma recompensa em dinheiro, para colocar a gaveta em ordem. Seria um final de processo lindo, com todas as meias encontrando sua metade sumida. Sobe a música.

Já deve parecer óbvio que nunca fui do tipo que organiza meias e cuecas por gradação de cores. Nesse campo, meu esforço mais redobrado até hoje foi separar as camisetas em pilhas – pretas aqui, brancas ao lado, azuis em baixo, vermelhas em cima… Expliquei a lógica pra diarista, mas ela não deu muita bola.

Colocar nossas coisas em ordem é mais do que assumir o T.O.C. – é ligar uma luminária no caos do dia-a-dia. A gente vai tocando a vida, navega ao ritmo da correnteza, até que tudo se embanana. Decisões simples de serem tomadas se arrastam sem a menor perspectiva de solução. Organizar uma gaveta pode não salvar vidas, mas dá um ânimo e tanto.

É um alívio muito grande reencontrar a cueca mais confortável, a camiseta que melhor traduz seu estado de espírito e a meia que não discute com o tênis. Quantas vezes, por falta de localizar o figurino certo, não saí à rua com cara de quem se vestiu no escuro? Não tem nada pior do que acordar com espírito azul e ir trabalhar com uma camiseta marrom. Ou bege!  

Tem também o armário dos documentos. Imposto de renda, IPTU, contratos de trabalho, meu Deus, é muito papel. O pior é que em algum momento da vida eu tive tudo aquilo em ordem. Cada papel na sua pasta, cada macaco no seu galho. Foi literalmente um momento. Em dois dias, já havia uma conta onde deveria constar uma certidão. Comigo, descambar pra bagaceira é a coisa mais fácil do mundo. 

Eu bem queria ser mais metódico. Juro. Apesar do medo de me tornar um psicopata organizadinho, daqueles capazes de atrocidades impensáveis sem piscar um olho, eu acredito que deve haver um limite para ser desorganizado. Você não se torna um serial killer só por deixar a gaveta de meias com os pares, no mínimo, aproximados.

E eu nem cheguei na gaveta dos remédios – que é o nome dado pelos maiores de 60 ao espaço da cômoda que antes abrigava drogas ilícitas. A coleção de medicamentos não para de crescer e oferece o perigo real das datas vencidas. Recentemente, encontrei o frasco de um remédio vencido em 2016. Talvez o medicamento nem esteja mais à venda no mercado oficial. É bom dar uma checada.

P.S. Terminei de escrever e não me contive. Arrumei duas das gavetas mais complexas. Foi revigorante como uma colherada de Biotônico Fontoura.

Mãos armadas

Fui assaltado pelo taxista na porta de casa há cerca de duas semanas. Ser vítima de assalto, hoje em dia, não é exatamente a notícia do século. Sei de gente que foi roubada por ladrões armados três vezes na mesma noite, praticamente em sequência. Meu caso foi mais simples: peguei um táxi à noite, trajeto curto, corrida de 15 reais. O motorista disse que não tinha troco pra minha nota de 20 reais e sugeriu que eu pagasse em cartão de débito. Puro, inocente e besta, aceitei.

Entre a porta do prédio  e a do apartamento, chegou o aviso do banco: débito de 3.015 reais! Não preciso nem dizer que entrei em casa com o coração saltando pela boca de tanta raiva. Como era táxi apanhado na rua, eu não sabia da placa, do nome do motorista, nada. Valorizei como nunca os ubers e 99s da vida.

Depois de várias tentativas frustradas, consegui falar com o atendimento do banco. A conta já tinha sido bloqueada pela própria instituição, que considerou o gasto um tanto exótico e parou de encontrar meus dados no sistema. Por mais verniz que tenha acumulado na vida, continuo sem cara de quem gasta 3.015 reais numa noitada.

Finalmente, uma voz humana me atendeu. Expliquei. Caí no velho golpe da amarelinha, a máquina que alguns entregadores de comida usam para tirar uma gorjeta extra do cliente. Eu sabia desse golpe, mas ignorava que motoristas de táxi tinham aderido. Bloqueei tudo, tomei um chá e fui dormir.

No dia seguinte, tive de ir agência do banco. Troquei todas as senhas e entrei com pedido de ressarcimento. Ao contrário dos capetas de plantão, o dinheiro que saiu da minha conta me pertencia. Para minha surpresa (confesso), o banco concordou. Em alguns dias, tive a grana de volta – condicionada a ser novamente retirada, caso a segurança do banco considerasse o destinatário uma entidade honesta e acima de qualquer suspeita. Vai ser difícil a tal Larissa, nome que aparece no recibo do cartão, provar que o táxi é idôneo.

Uma coisa dessas na vida de um sujeito trabalhador e honesto é um evento bastante incômodo. A gente fica feito o John Travolta naquele meme, perdido de dar pena. Pensei nas armadilhas que nos espreitam a cada esquina. Já não está fácil pilotar máscara, trabalho, saúde, encontros, desencontros, saudades, tudo isso que agora faz parte da rotina. Ainda tem que estar atento e forte, como na canção tropicalista, e acordar com permanente disposição de matar um leão pilantra por dia.

E o que não nos falta pelo caminho é safardana, em qualquer esfera. Tem sempre alguém disposto a ser mais esperto. Do zé ruela que agasalha o troco até o mandatário que loteia o governo como se fosse a birosca da quebrada, somos vistos 24 horas por dia como idiotas potencialmente inofensivos. Fala sério, é cansativo manter esse estado de perpétua vigilância.

Pedacinhos de papel

No Houaiss, miscelânea pode ser definido como “um conjunto confuso de coisas diferentes”. Pra mim, miscelânea será eternamente o nome de um álbum de figurinhas que ganhei quando tinha 7 anos. O álbum virou poeira, mas ficou o fascínio da palavra. “Miscelânea” tem uma sonoridade única, as letras se juntam e bailam na boca. Experimente: mis-ce-lâ-ne-a!

O álbum do meu passado era uma coleção deliciosa da chamada cultura geral, indo de animais do fundo do mar a capitais do mundo de então, passando por cantores de quem eu nunca tinha ouvido falar – Elza Laranjeira, por exemplo, estava totalmente fora do circuito em 1967, mas mereceu uma foto no álbum. Foto bem ruim, por sinal.

Naqueles tempos, quando tudo na vida era só mato, não existia a moleza da figurinha autoadesiva. Tínhamos de colar foto a foto. Os mais durangos – peguemos, por exemplo, eu – aprendiam a fazer um grude com água e farinha de trigo. Era esquisito, mas colava mesmo – e deixava cada página bastante pesada.

Havia uma família na minha rua, na zona norte profunda de São Paulo, que se desdobrava pra equilibrar o orçamento no fim do mês. O pai era pedreiro, os cinco filhos eram pequenos e dona Bela, a mãe, era a tradicional “do lar”. Dona Bela sempre encontrava um jeito de descolar um troco a mais. Para minha alegria inenarrável, durante uma época ela conseguiu um bico de empacotadora de figurinhas.

Foi a primeira vez que entendi os saquinhos de figurinhas como um produto manipulado antes de chegar às minhas mãos. Quem diria? Alguém colocava os três pedacinhos de papel em cada embalagem! Genial. 

A coisa funcionava assim. Um carro despejava uma montanha de figurinhas na sala e dona Bela reunia os filhos para empacotar as danadas. Não perdi tempo e me ofereci de voluntário. Logo percebi que não seria um empacotador comum. Eu era uma espécie de ourives da figurinha.

Depois de me familiarizar com o sistema de trabalho, entrei no campo dos requintes. Eu não era um trabalhador mecânico, de jeito nenhum! Escolhia as figurinhas que iam em cada envelope! Separava as carimbadas – aquelas que, uma vez encontradas, ajudavam o colecionador a ganhar um prêmio – para colocar em saquinhos abençoados pela sorte.

Num dia de espírito de porco, coloquei duas figurinhas repetidas no mesmo envelope. Mas juro que foi só uma vez. Se você que me lê foi o infeliz comprador do pacotinho, me perdoe. Em outra ocasião, tocado pelo Espírito Santo, coloquei três carimbadas no mesmo saquinho. Até hoje, imagino a surpresa feliz de quem as encontrou. Se foi você, não precisa agradecer.

Não preciso estender muito a ópera: minha carreira de empacotador de figurinhas não durou. Dona Bela, sacando minha lerdeza crônica, logo deu um jeito de me dispensar – com delicadeza, pois ela era uma fofa.

Retornei às páginas do melhor álbum de figurinhas que conheci em toda minha vida – até então. Era um caderno que trazia em maravilhosas fotos coloridas as cenas mais legais do filme El Cid, estrelado por Charlton Heston e Sophia Loren. Na flor dos meus 7 anos, eu não fazia ideia de quem fossem Charlton e Sophia, mas fiquei vidrado no álbum.

Foi a primeira vez que o ácido da inveja invadiu meu coração. El Cid, o álbum, pertencia a meus primos Carlos e Celso, que moravam na Vila Medeiros – pertíssimo de onde hoje brilha o restaurante Mocotó (a irmã deles, Vera, era muito nova, nem deve lembrar). Como as famílias se frequentassem com assiduidade, logo que chegava lá eu corria ao armário ou à estante onde ficavam livros e cadernos. El Cid estava lá, quase que à minha espera.

Com os anos, o álbum foi se desmilinguindo. Perdeu a capa, algumas fotos, descambou. E eu adolesci sem vontade de ficar visitando tios e tias. Curioso é que, adulto, nunca vi o filme. Dirigido por Anthony Mann e lançado em 1961, ele dura mais de três horas, o que deve ter contribuído pra minha preguiça. 

Atiçado pela vontade de escrever a respeito dele, fui atrás de informações sobre o álbum. Foi lançado por aqui em 1965 e até hoje não consigo entender como um exemplar chegou à Vila Medeiros, na casa de uma família que não tinha no cinema sua principal fonte de distração. A pesquisa me ajudou a descobrir que El Cid, o álbum, tem muitos fãs. A ponto de estar cotado no Mercado Livre a 500 reais. Foi curioso ver o passado assim, devidamente valorizado.

Enquanto escrevia, tentei entender quais labirintos percorri para chegar nessa inusitada sessão nostalgia. Há muitas décadas, colecionar figurinhas não é meu hobby. Então, por que o guerreiro castelhano Rodrigo Diaz de Vivar, El Cid, passou a mão na Miscelânea e voltou à minha lembrança? Creio que o gatilho foi o susto que levei com a Covid e que pessoas muito queridas têm passado com outras doenças. O álbum não está completo, longe disso. Ainda restam muitas páginas pra colar figurinhas nesta vida.

Este seu olhar…

As máscaras começaram a cair, festejaram os salientes. Lá vem a temporada dos feios, lamentaram os pessimistas. Eu é que não paro de usar a minha, alertaram os desconfiados. Resumo da ópera: por quase todo o país, ninguém ficou insensível aos decretos que suspenderam a obrigatoriedade do uso de máscaras em locais abertos. Conforme a cidade, ficou praticamente proibido cobrir o rosto.

O problema agora é outro. O corpo precisa de um tempo para se adaptar às bruscas mudanças de temperatura, que transformam termômetros numa gangorra prejudicial à saúde. Com o cérebro acontece a mesma coisa. Lembra dos primeiros meses de pandemia, quando você era abordado na rua por um desconhecido de olhos brilhantes, que te chamava pelo apelido de infância? Fiz muita cara de assustado para amigas que abandonaram o hábito de tingir cabelos e circulavam libertas de todas as henas. 

Um dia fui reconhecido no ônibus por um rapaz, obviamente mascarado. Ele se mostrava muito feliz em me encontrar e eu procurava um modo minimamente elegante de demonstrar que não fazia ideia de quem se tratava. Não teve jeito: “Baixa a máscara um instante, por favor”. Ele riu, fez o que eu pedi, eu mandei um entusiasmado “ah, é você!” e saltei do ônibus na parada seguinte, sem fazer a menor ideia de quem se tratava.

Me aconteceu também de reconhecer mascarados na rua. Pelo jeito de andar, por exemplo. Aos poucos, fomos nos acostumando ao apêndice facial. De tal modo que, quando fui ao Recife, em novembro, vivi a louca experiência de caminhar pela praia ao ar livre, sem nenhum estranho por perto, com o rosto completamente exposto ao sol. Era Boa Viagem, mas me senti pelado em Tambaba, na Paraíba. Nudez é mesmo um traço cultural.

Com o tempo, desenvolvemos técnicas para identificar as pessoas – pela testa, pelas sobrancelhas, pela voz abafada sob a máscara. E aí um decreto nos manda reajustar os ponteiros e começar a ver rostos com a metade de baixo à mostra.

Prepare-se para algumas surpresas, nem todas esteticamente agradáveis. Tem gente que nasceu com olhos lindos – e para por aí. A boca é murcha, a dentição é torta, o bafo é de onça com azia. O uso da máscara nos protegia de várias decepções.

Por razões bastante conhecidas de quem lê este blog, não tenho percorrido as ruas como sempre foi do meu feitio. Mas tenho olheiros por toda parte. E eles me contam que chega a surpreender o número de pessoas usando máscara, agora que liberou geral. Não me espantei. Nosso jeitinho é o velho “finge que aceita”, dando uma banana pros manda-chuvas.

Não confiamos no governo quando a pandemia se instalou e eles nos deram todas as razões para isso. Agora tentam nos convencer que o pior já passou e nossa desconfiança só aumenta. A hora é de resistir à tentação desmascarada. Respira, faz a muçulmana e deixa pra mostrar o rostinho na intimidade. Siga investindo pesado na intensidade do olhar.