Caetano Ramos. Graciliano Veloso.

Colocado no ar no dia 7, o documentário Narciso em Férias, de Ricardo Calil e Renato Terra, já provocou uma chuva de comentários emocionados. Com força e, ao mesmo tempo, delicadeza, o filme coloca em foco o período de 54 dias em que Caetano Veloso e Gilberto Gil permaneceram presos pelo regime militar, entre o final de 1968 e o carnaval de 1969. Seu crime: compor canções que não agradavam os puxa-sacos dos militares e que, ainda por cima, “desvirilizavam” a platéia.


Não há no filme nenhuma referência externa, além da voz e do olhar por vezes à beira das lágrimas de Caetano. Mas ao reconstruir o período de ditadura militar, Narciso evoca outra narrativa de um artista brasileiro encarcerado por produzir obras incômodas: em Memórias do Cárcere, o alagoano Graciliano Ramos refaz todo o período em que esteve preso pela ditadura de Getúlio Vargas, en 1936.

Nordestinos, os dois artistas se irmanam na ignorância: não se dizia jamais por que foram arrastados pelos soldados do Exército. No final dos quase dois meses, Caetano descobriu que fora vítima do que hoje se chama fake news: ele teria cantado o Hino Nacional durante um show em ritmo de tropicália – a acusação é essa. Era mentira e Veloso foi tão veemente em sua auto-defesa que convenceu o militar que o interrogava.

Graciliano não teve a mesma oportunidade de se defender. E se tivesse, talvez não lograsse igual êxito. De espírito agreste e humor áspero, o autor de Vidas Secas e São Bernardo não concorreria jamais ao título de Mais Simpático do Presídio. Por isso, amargou um xilindró de 10 meses, tendo saído da mesma maneira que entrou – sem saber o motivo.


Curiosamente, Graciliano e Caetano tiveram seus períodos de presidiário traduzidos pelo cinema. Em 1984, Memórias do Cárcere foi levado às telas por Nelson Pereira dos Santos e exibiu um Carlos Vereza em atuação soberba. Narciso em Férias apoia-se unicamente no depoimento de Caetano Veloso e nisso reside sua força.


Cada um à sua maneira, os dois filmes conversam com o tempo em que foram produzidos. Memórias foi lançado quando o Brasil já caminhava para o fim da ditadura militar iniciada vinte anos antes. No filme, Graciliano era o resumo do brasileiro que se vira numa arapuca sem ter tido chances de opinar e dela saíra com a perplexidade na cara.
Sua base foi o livro de memórias de Graciliano Ramos, lançado depois de sua morte, em 1953. A obra chegou às livrarias sob suspeita de ter sofrido censura dos comandantes do Partido Comunista Brasileiro (PCB), ao qual Graciliano se filiara depois da prisão. A família desmentiu. No ano seguinte ao lançamento, o governo Vargas – agora em versão democrática – acabava, com o suicídio do presidente.


Recém-lançado, Narciso em Férias encontra um país assustado com a ameaça de um regime autoritário. Pior que isso: os candidatos a ditadores desta vez surgem embalados no voto popular, como que autorizados a perpretar sandices. Não fosse a teimosia que engessa as mentalidades, seria uma ótima oportunidade de novas gerações entenderem o que um governo autoritário faz com quem pensa fora da casinha.


Caetano e Gil não pegaram em armas, nem conclamaram à guerrilha. Usaram guitarras e deixaram o cabelo crescer. Fizeram músicas e, por isso, foram exilados. Narciso nem chega nessa parte da história, mas carrega todos os sinais da violência a que os dois músicos foram submetidos. A não ser que a pessoa seja mesmo um adolfinho tupiniquim, fica muito difícil justificar tamanha truculência.


Narciso em Férias não dialoga com o presente. Faz mais que isso. Como no conto do Chapeuzinho Vermelho, o filme nos aponta a trilha em meio à floresta. Mas, em vez da casa da vovozinha, essa trilha nos leva ao futuro. E ele pode se tornar sombrio. Só faltou terminar com a hashtag “fica a dica”.

De volta à Ilha Fiscal

No dia  9 de novembro de 1889, a monarquia já estava mais pra lá do que pra cá, mas isso não impediu que se bancasse uma festona em homenagem a visitantes da marinha chilena ancorados por aqui. O baile da Ilha Fiscal teria custado quase 10 por cento do orçamento da cidade do Rio para o ano seguinte. Mesmo assim, os 4.500 convidados se divertiram como se não houvesse amanhã. Não houve: uma semana depois, a família imperial era deposta pelos militares que proclamaram a república.

Passados 131 anos,  o espírito do último baile do império continua dando as cartas por aqui. Acossados há quase seis meses por um vírus invisível e mortal, com mais de 120 mil defuntos na contabilidade, os brasileiros  decidiram por consenso que nada está tão ruim  que não possa ser comemorado. E dá-lhe estradas congestionadas, praias lotadas e bares soltando gente pelo ladrão, tudo para homenagear a Independência do Brasil. Viramos uma enorme Ilha Fiscal.

Na versão mais plebeia da festança, pode não ter havido a gastança do baile imperial – os tempos andam bicudos, afinal de contas. Em vez dos 800 quilos de camarão, 500 perus, 10 mil litros de cerveja e 304 caixas de vinhos e champanhe, entram picanha, linguicinha, coração de frango e outros mimos do churrasco entre amigos. O importante é juntar a galera e espantar o vodu. Afinal de contas, morrer todo mundo vai, né mesmo?

Cansados de esperar um convite pro baile da princesa, os brasileiros entraram de bicões na festa. Não há constrangimento aparente. Pelo contrário, há até um raciocínio por trás de cada passo. Cada um sabe de si, nada de fazer amizades com estranhos. O vírus não vai ter a deselegância de pular em cima de quem não conhece. Muito menos em cima de gente com o astral lá em cima. A alegria nos protegerá.

A verdade é que está todo mundo pelas tampas. Mesmo os mais assustados e paranoicos já buscam brechas por onde pular a cerca. Uma escapadinha aqui, outra ali, quem nunca? Deve ter rolado a mesma coisa no fim do império. O mundo conhecido desmoronava, mas quem teria coragem de despachar para longe uma princesa tão pé-de-valsa como a Isabel?

Dizem que, acabada a farra, o pessoal da limpeza encontrou pelos salões cartolas, luvas, chapéus e até um espartilho, sem falar em outras peças íntimas de algumas damas presentes. O império ruiu, mas o fervo foi danado. O baile da Ilha Fiscal previu direitinho o Brasil em que vivemos hoje.

Damas do crime

Na família formada por um casal e vários filhos adotivos, um dos pais aparece morto. E o acusado pelo crime é justamente um dos filhos de criação. Mas ele não está sozinho na empreitada. Com esse argumento, a inglesa Agatha Christie (1890-1976) escreveu Punição para a inocência e acrescentou mais um título à obra que, no fim das contas, listou 80 romances, inúmeros contos e várias peças teatrais.

Punição é de 1948 e há coisa de três anos foi transformada numa minissérie disponível na Globoplay. O sotaque impecável dos atores britânicos deu à série um charme impossível de se traduzir nos trópicos suarentos . Mas o tema era forte e apareceria bastante no noticiário policial dos últimos dias.

O caso da pastora deputada, seu marido e suas dezenas de filhos adotivos ultrapassaria a linha do bom senso em qualquer sala de roteiristas chamados para criar uma trama de suspense. Mas revela, acima de tudo, que a nobre parlamentar teria tudo pra ser leitora voraz da Dama do Crime – a inglesa, eu digo. Vários detalhes do caso brasileiro saltam dos livros da britânica. A pastora com nome de flor transformou Agatha Christie em literatura de auto-ajuda.

Tudo teria começado quando ela viu a capa de Assassinato na casa do pastor. No romance de 1930, surge pela primeira vez um dos personagens mais famosos de Agatha, a velhinha xereta Miss Marple. Solteirona e tricoteira, Miss Jane Marple soluciona casos intrincados traçando paralelos com as figurinhas convencionais de seu vilarejo. O caso deste livro não serviria aos propósitos da deputada – mas, cá entre nós, que título, hein?

Em aproximadamente trinta romances de Agatha – como A Casa Torta, de 1949 – não faltam homicídios por envenenamento: cianureto, estricnina, cicuta, perfume de amêndoa, gotinhas no vinho do Porto… Como sabem os que acompanharam o noticiário, mesmo tentada com afinco, a técnica não vingou por aqui.

Foi preciso apelar para métodos que não existiam enquanto dona Agatha vivia. Mas, francamente, digitar no Google “assassinos onde encontrar” é de uma pobreza de imaginação espantosa. O detetive Hercule Poirot, criação mais famosa de Agatha Christie, se reviraria no túmulo. Bem se vê que a mocinha carioca nunca demonstrou curiosidade pelos livros que a pastora lia nos momentos de lazer.

No fim da história, depois de muitas tentativas, nada de veneno. O pastor pode ter sucumbido mesmo a uma trama que parece a versão mal dublada de Assassinato no Orient Express. Sobre isso, não dá pra falar muito sem correr o risco de um tremendo spoiler.

 

Intenção e gesto

O segundo impulso ao acordar hoje foi não escrever nada. O primeiro impulso foi continuar deitado, porque estava frio pra caramba. Mas falemos do segundo. O que haveria pra escrever? Falar de novo da quarentena, recorrer às memórias, indignação e ironia… Do ponto de vista do travesseiro, parecia tudo um repeteco.

A imaginação congelou. Mixou o carbureto da criatividade. O humor, então, foi pras cucuias e não disse quando volta. A convivência íntima e exclusiva comigo mesmo não surtiu os efeitos prometidos nos livros de auto-ajuda. O estímulo dos amigos, dos queridos, dos chatos e dos insuportáveis continua fundamental.

O noticiário acaba cumprindo esse papel. Ontem à noite, a tremedeira de frio até diminuiu quando – de dentro de minha casa confortável – fiquei sabendo de duas mortes de sem-teto por causa do frio. Morre-se de frio no centro de São Paulo, a poucos quilômetros da minha sala. A realidade – ou melhor, as realidades nos obrigam a repensar cada momento. Nunca a diferença entre falar e agir foi tão marcante numa sociedade bipolar como a nossa.

Não resta a menor dúvida dos nossos altos e baixos de agrupamento. As mesmas pessoas que, até outro dia, pareciam não sobreviver sem um shopping center aberto, agora soltam manifestos contra a volta das aulas presenciais. A favor, por enquanto, só mesmo os donos das escolas particulares, movidos por um radical amor ao ensino.

Ironicamente, foram os militantes da volta à normalidade os que melhor engambelaram o sistema capitalista. O comércio reabriu, mas a clientela exibiu sua melhor cara de paisagem. Galera faz fila na porta do shopping só pra entrar e bater uma perninha. Comprar, mesmo, fica pra depois.

Quase a mesma coisa anda rolando nos restaurantes. Os donos do negócio reclamaram da permissão de só poder ocupar 40 por cento das mesas. No frigir dos ovos, constataram que esses 40 eram um deslavado otimismo. Alguns até desistiram de abrir, porque os custos altos não teriam retorno garantido.

Isso mostra que, em sociedade, somos aquele moleque que fala alto e traça um risco no chão diante dos outros: “Pisa aqui se você é homem!”. O objetivo da frase é apenas marcar território e causar impressão. Foge do combinado quando o outro realmente pisa na risca: aí, é enfrentar ou sair correndo.

Resumindo, a coisa tá assim: querer, a gente quer. Muito. Mas cadê coragem?

 

 

Pé na estrada

Viajar é um vício. Droga pesada. Quando você pega gosto pela coisa, não há nada que impeça de – no mínimo – arquitetar uma viagem em grande estilo. A grana curta, a saúde instável, a falta de companhia, tudo isso só entra no final do planejamento. E o sonhado giro pelos fiordes noruegueses acaba resumido a uns dias na casa da tia em Mongaguá, torcendo por uns dias de sol.

Recentemente, participei de uma live sobre viagens com a representante do turismo de Curaçao no Brasil, Janaína Araújo, e foi uma hora de conversa das mais agradáveis. Teve efeito colateral, sempre tem: aumentou a vontade de preparar a nécessaire, fazer a mala e pegar um avião. Outro efeito que a gente nunca espera é a reativação da memória: qual, entre tantas, foi a viagem preferida? Qualquer resposta seria incompleta, porque sempre haverá o próximo embarque.

Já que não decidi qual a melhor, posso pelo menos lembrar da primeira. Ou daquela que considero meu primeiro pé na estrada: tinha 12 anos e embarquei em São Paulo, com mãe e irmão no caminhão de um tio, rumo a Pernambuco. Três ou quatro dias de viagem por rodovias sem muitas comodidades – era o início dos anos 70, não tinham implantado nem os orelhões, pra vocês terem uma ideia -, com a trilha sonora de todo caminhoneiro de então: Waldick Soriano. Anos antes de virar cult, Eu não sou cachorro, não era a tortura pra um moleque paulista mimado.

Até aquela idade, passar noites fora de casa se resumia a visitar a família da Tia Alzira, caseira num sítio em Itapecerica da Serra, a 40 quilômetros de São Paulo. Minha tia, o marido e os seis filhos recebiam a parentada de São Paulo com a maior festa. O sítio não era deles, claro, mas pra criançada era como se fosse.

Até hoje lembro da sensação de dormir ouvindo os carros passando na estrada ao longe. Lembro também do cheiro do café e da caneca de ágata que queimava os lábios. Não esqueço das framboesas colhidas no pé, dos banhos de rio e do piano que havia na casa grande. Lembro de achar os anões no jardim a coisa mais linda deste mundo.

Ir a Pernambuco foi como passar das redes do Sítio do Pica-pau Amarelo pra cabine de Pedro e Bino em Carga Pesada. Era tudo novidade e nem sempre o novo é aquela delicinha pra uma criança. Começava pelo tio Nené, de quem só ouvira falar. Ele chegou sem avisar em nossa casa pilotando um caminhão enorme. Minha mãe e o irmão caçula não se viam desde o casamento dela, 14 anos antes. Pense num reencontro impactante.

Foi nas conversas depois do jantar que veio a ideia: ele levaria a irmã e os sobrinhos para Jupi, no interior de Pernambuco, onde moravam avô, tios, primos, enfim, uma nova parentada pra gente conhecer. A viagem durou o tempo suficiente pra eu querer me enforcar na beira da estrada. Caminhoneiro típico, meu tio habituara-se a viajar sozinho e aqueles sobrinhos cheios de nhém-nhém-nhém (o mimimi da época) não devem ter animado seus dias.

No fim do primeiro dia, quando ele desligou o caminhão num posto de gasolina, demorou um tempo pro meu cérebro entender. Aos meus olhos, a estrada continuava vindo sem parar.

Mas é preciso reconhecer o que a viagem me deu de bom. Foram várias primeiras vezes: minha primeira visita a Pernambuco (Recife só dali a alguns anos…). Minha primeira vez diante do Rio São Francisco, um lugar que só existia nos livros de Geografia. Foi também a primeira vez que comi inhame cozido com carne de sol assada. O gosto perdura nas papilas da memória.

Depois dessa turnê um tanto conturbada pela ingenuidade de todos os envolvidos, muitas outras viagens vieram. Umas mais confortáveis que outras. Umas por prazer, outras por dever. Destinos variados, em cinco continentes. Já viajei de caminhão, ônibus, navio, avião. De carro de boi, pau de arara e ultraleve. Até hoje só não voei de balão, mas ainda não desisti.

 

Vovô viu a live

Na sexta-feira, o microcosmo das minhas redes sociais foi dominado por Caetano Veloso, que aproveitou o dia de seu aniversário para fazer uma live ao lado dos três filhos. Como tudo que acontece hoje em dia no Brasil, as redes mostravam dois times radicais: os que viram e adoraram versus os que não viram, por diversos motivos, chegando mesmo a desdenhar. Não ter visto a live do compositor baiano virou uma espécie de selo de autenticidade: “Eu sou consciente do meu papel na sociedade e não me deixo levar pela maioria oba-oba nem pela supremacia da Rede Globo”.

Bobagem. Não ter visto a live significa somente isso mesmo: a pessoa não conseguiu acessar a plataforma da Globoplay, não estava com a menor paciência pra ficar tentando e trocou tudo por um bate-papo, uma leitura, qualquer coisa. Perdeu um belo show, mas convenhamos, todo mundo tem uma coleção não vista de shows imperdíveis.

Como disseram alguns amigos no Facebook, essa coisa de papai e seus três filhos nem sempre dá coisa boa no Brasil. No caso do Caetano, deu. Unidos pela genética e por laços afetivos reais, Caetano, Moreno, Zeca e Tom vêm se apresentando há alguns anos em um show bem bonito e comovente, sem ser piegas. A Família Dó-Ré-Mi do Recôncavo tem muitas qualidades – a começar pelo repertório dos shows, praticamente todo extraído da obra do patriarca.

Assim como acontece nas lives de Milton Nascimento e Gilberto Gil e nos shows reais de Chico Buarque, o acervo de belezas deles é tão  vasto que é praticamente impossível fazer uma apresentação meia boca. Eles podem escrever os nomes de suas canções em papeizinhos, jogar tudo pro alto feito aleluia e só cantar o que cair dentro de um círculo. Vai ser bom da primeira à última nota.

Quem viu a live de ontem ficou encantado – como provam as centenas de posts, fotos e batidas no peito, tipo passarinho na dança do acasalamento. Ninguém reclamou que teve poucas novidades no repertório, pelo contrário. A intimidade com cada música era o carinho que estamos todos precisados nesses tempos pandêmicos. Foi o que tornou a coisa toda uma roda de violão na sala de casa. Caetano trouxe a família, os instrumentos e o bolo – e a gente só faltou pedir “toca essa, toca aquela”.

Caetano nos acompanha desde 1965, mais ou menos. Nesses 55 anos, é praticamente impossível não ter pelo menos uma música dele que nos fez companhia. Muitos dos que me lêem cresceram junto com a obra do compositor, uma obra forte, impactante, atrevida e desafiadora, romântica e carinhosa, do tipo que consegue ser atemporal mesmo usando referências de determinados momentos históricos.

Cada música que saía daquela sala, em Ipanema, nos atirava no colo das lembranças. Odara me devolveu à faculdade e à revolucionária descoberta de que o prazer é também uma arma política. Reconvexo, ah, que delícia é dançar essa música em qualquer apresentação do bloco Tarado ni Você.

Quando Caetano cantou Nu com a minha música, eu me vi em 1981, morando na França, em Bordeaux, na casa do Hans Peter, um alemão que estudava medicina e tinha um grupo de bossa nova na cidade. Para “pagar” a hospedagem, eu ensinava a Hans o significado das letras. O fato de, na época, eu não falar francês e ele falar um português aprendido num curso de férias em Lisboa não foi impedimento.

Às vezes, a coisa enroscava. “Vislumbro certas coisas de onde estou”, por exemplo… Tenta traduzir vislumbrar pra uma língua que você não fala. Vislumbrar é mais que ver, vai além de enxergar. Vislumbrar é vislumbrar. “Turba de Araçatuba” foi até mais fácil. No fim das contas, o grupo acabou se apresentando pelos bares de Bordeaux, mas nos anos 2000 tinha virado uma banda de forró. Sempre em Bordeaux. Acho que Nu avec ma musique saiu do repertório.

 

 

Passaporte inválido

É provocação pessoal, não tenho mais a menor dúvida. De uns tempos pra cá, em plena pandemia, recolhido em prisão domiciliar, recebo diariamente incontáveis avisos de viagens tentadoras. Vai desde uma tarde de samba em Paquetá até dias paradisíacos nas Ilhas Maldivas. Tem promoção de agência de viagem, descontos inacreditáveis em milhagens e hotéis praticamente prometendo amor sincero e beijo na boca. Parece coisa de universo paralelo.

Pra uma pessoa feito eu, que perdia o amigo, mas não dispensava a viagem, isso tudo é mais que tentação. É um bullying e dos mais cruéis. O mundo faz questão de esfregar na minha cara, como se eu não soubesse, as belezas espalhadas por todos os cantos. Pouco importa que os aviões caprichem no desconforto e alguns trajetos tirem qualquer Buda do sério: no fim das contas, a gente só vai lembrar dos momentos realmente legais de cada viagem.

É com esse apelo que agências e companhias aéreas acenam – o lado bom da coisa toda. As lembranças ruins ficam no cesto de lixo do hotel. Na minha encarnação de editor de turismo, muitas vezes tive que responder a essa pergunta: por que os cadernos de turismo insistiam em só mostrar o lado bom dos destinos?

Porque, pra mostrar a realidade nua e crua – respondia eu – os jornais já dispunham dos cadernos de Cotidiano, Economia e Política. E de vez em quando, os de Esportes. O sonho ficava por conta dos suplementos, especialmente o de turismo.

Hoje em dia, você visita qualquer museu do mundo sem se levantar da poltrona. Mas antes da internet abrir os caminhos, apelava-se para o papel. No caso do Primeiro Mundo, a saída eram os guias. Nos Estados Unidos, havia livrarias especializadas somente em guias de turismo – e havia de tudo, de “passe um dia com o Pateta” até “roteiro para cadeirantes gays vegetarianos de origem asiática”.

Os brasileiros, antes de serem lançadas boas revistas do ramo, só podiam se apegar a dicas de amigos e aos cadernos de turismo dos jornais. Tinha gente que colecionava, sublinhava os melhores trechos, decorava as dicas. Soube de um homem que indicava descolados restaurantes pequenos de Paris sem nunca ter posto os pés além de Mongaguá. Mas ele comprava e decorava todas as reportagens sobre a capital francesa. E  esbanjava com propriedade seu conhecimento terceirizado.

Bons tempos em que, para viajar, você precisava apenas juntar uma grana, tirar o passaporte e se jogar no mundo. Quer dizer, atualmente a gente continua precisando da grana e do passaporte, mas pra se jogar no mundo vai ser difícil. Quem nos aceita? Até mesmo a movimentada fronteira de Foz do Iguaçu e Ciudad del Este agora só funciona com horários reduzidos. Acabou a farra, neném.

Viramos os párias do mundo, os malcheirosos que ninguém quer por perto, o convidado que exagera na birita, paquera a festa inteira e derruba cerveja na churrasqueira. Nem os norte-americanos nos deixam passar. Justo eles, que sempre manifestaram muito carinho por nossos vorazes hábitos consumistas.

O lado bom dessa rejeição das galáxias é que podem me mandar toneladas de promoções, que não teria como dar conta do recado. E olha que estou subindo pelas paredes com saudade de um pé na estrada. Lamento por Londres e Paris, cujas atrações combinam muito com meu jeito de ser.

 

 

 

 

 

Face a face

Telefonar voltou à moda. Depois de uma temporada intensa de e-mails, posts, voice-mails, memes e emojis, a quarentena nos fez redescobrir o prazer de ver os amigos – nem que seja pelo distanciamento social da chamada de vídeo. Quando o rosto conhecido surge na telinha do celular, falando de verdade com você, é como se um novo mundo antigo se descortinasse.

Chamadas de vídeo lembram as festas de Natal de nossa infância, na parte em que a madrinha chegava carregando um presente bem vistoso. Só depois de adultos é que fomos descobrir as arapucas ocultas em cada rabanada. Na infância, bastava um pacote embrulhado em papel colorido pra coisa ficar excitante.

Em tempos de isolamentos e rostos cobertos por máscaras, tem de haver um jeito de se sentir sócio do clube. A tecnologia tem dado conta do recado, com limites. Grupos de trabalho e debates, como os dos aplicativos Zoom e Team, são ótimos pra resolver problemas e esclarecer dúvidas, mas não suprem nossa carência de humanidade.

Como disse um amigo esta semana, os aplicativos são os terrenos onde praticamos pequenos monólogos. Dificilmente alguém interrompe quem está falando. Falta a incompletude do diálogo, que só o telefonema permite.

Quantas frases interrompidas, quantos assuntos deixados pela metade, quantos temas que mudam como o vento! Que delícia tudo isso! Tem nada melhor que desligar e bater na testa, esqueci de falar tal coisa. Ligação boa sempre deixa um rabicho de fora, desculpa esfarrapada pra outro telefonema – que, muitas vezes, não será dado.

Na chamada de vídeo, ninguém fica esplendoroso. O bom é que ninguém também fica assustador – exceto os casos perdidos, claro. Alguns de nós ficam sem saber pra onde dirigir o olhar e outros se atrapalham com os ruídos corporais que podem atravessar o espaço através do celular.

Sempre checamos nossa imagem, na pequena telinha que aparece como encarte. O cabelo está bom? Não, mas é o que temos para o momento. A roupa, a voz, parece até que vamos corrigir alguma coisa. Mas quando a conversa engata, esquecemos desses detalhes bestas – assim como na vida real.

Muitas vezes, o melhor vem no fim, quando a conversa termina. Sobra um sorriso meio bobo na cara, aquela euforia de quem passou um dia gostoso na praia. A sensação de ter vivido um momento de prazer é o melhor efeito colateral dessas micro-televisões só nossas.

 

 

De que serve a tarde?

Foi preciso vir a pandemia pra eu, finalmente, ver novos sentidos nos versos de Tom Jobim e Aloysio de Oliveira. “Mas pra quê, pra que tanto céu / pra que tanto mar / pra quê?/ De que serve esta onda que quebra / e o vento da tarde? / De que serve a tarde? / Inútil paisagem”. A paisagem emoldurada pela janela e iluminada por um escandaloso sol de inverno é de uma inutilidade quase ofensiva.

Sério, chega a dar raiva escancarar a janela e ter o quarto invadido por tanto sol. Que inveja dos invernos londrinos, quando escurece às quatro da tarde, depois de umas parcas horas de dia nublado e garoento. OK, eles têm o frio congelante e a torta de rim, mas tudo é questão de se habituar. Pernicioso mesmo é assistir ao desfile de dias perfeitos, que em condições normais nos obrigariam a sair de casa e expor os gambitos branquelos à overdose de vitamina D.

O clima não estimula ninguém a enfrentar a pandemia. Por qualquer 20 graus no termômetro muita gente já acha que afugentou o amaldiçoado corona. Lembra quando justificavam a multiplicação de casos na Europa com o frio do inverno? Pois o corona desembarcou no país tropical e fez a festa em lugares como Manaus,  Belém e Natal, onde neve, só as de isopor salpicadas no presépio.

O Brasil é um caso exótico nas modalidades de combate. A sensação é que, aqui, a pandemia vai ser vencida pelo cansaço, desmoralizada pelo pouco caso que fazemos de suas caretas. O desdém para com a doença é o único ponto de união entre dois mundos obrigados a conviver sem a menor curiosidade pelo vizinho.

Basta ver as regras ditadas pelos comitês de contenção da covid: não pegue ônibus lotado, siga as aulas pelo computador, faça suas compras pela internet. Nenhuma delas se adapta de verdade ao lado mais pobre da equação.

O fato de a internet ser praticamente uma ilusão de ótica nas periferias das cidades não entra na visão de mundo dos bacanas. Nem mesmo quando se dispõem a ajudar, com o auxílio emergencial, os manda-chuvas se coçam para olhar ao redor.

Na quitanda do seu Zé, onde pobre costuma comprar seus comes e bebes, só vale dinheiro à vera. Pagar as contas pela internet é filme de ficção científica. Mas a elite do país dorme de consciência tranquila porque fez sua parte. Se pobre cisma de não ter CPF, documento ou saber um mínimo de inglês, o problema é dele.

Distanciamento é outra fábula. Entre nós, isolamento social virou símbolo de status. Nem todo mundo pode se dar ao luxo de trabalhar em casa, reclamando do tédio que é encarar todo dia as mesmas quatro paredes. Tem uns que podem até tomar banho de sol no quintal. Ou dar um pulo até a casa de campo ou de praia.

Boa parte da galera que circula por aí, alimentando o mercado informal e lotando os transportes coletivos, não tem plano B. Não pode faltar no trabalho, nem usar cinco máscaras por dia. Isolamento social pra eles é conseguir sentar no banco individual do busão. Com muita sorte, toma banho sem ninguém batendo na porta do banheiro. Privacidade em casa equivale à de uma arquibancada de estádio em dia de clássico.

Não se iluda. Quem tem chance de se isolar e fazer home office também descuida da segurança. É regra demais pra dar conta. Usa máscara assim, lava a mão assado, qual a porcentagem de água sanitária na fórmula anti-corona… A essa altura do campeonato, mesmo quem se trancou na paranoia já começa, bem de leve, a abrir as asinhas.  E a encontrar, finalmente, alguma utilidade pra paisagem.

 

21.916 dias

Se tudo corresse conforme o previsto no comecinho de março, hoje eu talvez estivesse curtindo uma ressaca, movido lentamente pelos flashes da festança de ontem. Ficou tudo no plano do imaginário. Nada foi como antes. Acordei de boa, cabeça no lugar, fígado em ordem, apenas um pouquinho mais velho.

A única surpresa foi abrir os olhos e não experimentar uma Iluminação especial. Nenhum mistério foi esclarecido, nenhum segredo de Fátima saiu do bolso, nada. Aparentemente, tudo continuava como dois dias atrás.

É isso que dá acreditar na propaganda do Bilhete Único Especial. A gente acha que 60 anos são um marco divisório, o começo da Nova Era, a pedra fundamental da Grande Sabedoria. Tudo bobagem. A única verdade incontestável dos 60 é que você avançou várias casas na segunda metade da vida.

Até os 50 e poucos, a ideia de meia idade permanece em algum cantinho do nosso pensamento. Nossa meta é aquela velhinha que enfrentou a covid e saiu do hospital de campanha esfuziante aos 107 anos . Mas quando se atinge seis décadas, ninguém discute detalhes matemáticos e a placa de meio do caminho ficou pra trás.

O primeiro inconveniente prático de ter nascido há sessenta anos é que demora mais pra achar a data de nascimento nas fichas on line. Meu Deus, pessoas nascidas em 2005 já preenchem esses dados sozinhas! Você clica na setinha e como demora a aparecer o ano em que se nasceu!

Há também um certo descompasso entre o que você é e como você se sente. O espelho, hoje, foi generoso e me devolveu uma imagem dentro dos conformes – ou, pelo menos, sem grandes surpresas. Não era mais um candidato a Bebê Johnson (o que nunca fui, a bem da verdade) nem tinha virado um maracujá esquecido na gaveta da mudança. O cabelo até voltou a encaracolar, numa imitação agrisalhada de quem eu era no finzinho dos anos 70.

Fazer 60 é como ser escalado para o elenco de Rei Leão e não descobrir que papel lhe cabe. O pódio da idade parece lhe garantir o papel de Mufasa, o orgulhoso rei da selva que exibe ao filho a extensão de seus domínios. A perplexidade diante da vida que segue faz você ser um eterno pequeno Simba, erguido nos ares pelo pai leão. E chega a ser reconfortante saber que ainda há muito com que se espantar.

Na real, tem horas que você se sente atrapalhado feito o Timão ou pesado e gordo feito o Pumba. Quando resmunga contra a festa no vizinho você encarna o próprio vilão Scar. De todo modo, por falta de papel você não fica fora da Broadway.

O bom é que o homem se adapta, sempre, e não é por falta de tempo. Sabe quantos dias cabem em sessenta anos? 21.900, informa a calculadora. Acrescente os anos bissextos, 15. E o dia de hoje. Dá um total de 21.916 dias até o momento – e a contagem não tem hora pra acabar. Pelo menos, eu não estou com a menor pressa de passar a régua. Pendura a conta.