A estante do ministro

Chamou a atenção de meio mundo a estante quase completamente vazia que o ministro da Economia Paulo Guedes exibiu atrás de si esta semana. Nos últimos meses já nos habituamos a fuçar as casas alheias e a visão de prateleiras cheias de livros virou uma espécie de marca registrada de pessoas inteligentes.

É irresistível tentar decifrar os títulos espalhados por ali. Alguns são de livros que até temos em casa, “onde será mesmo que está aquele romance?” Há quem trate os livros com capricho, há divisões de blocos feitas com pequenas esculturas – “olha, um ovo de Brennand igual ao meu!” – e surpreendentes bonequinhos de super-heróis. O cara pode estar mandando bem na teoria, ao microfone, mas por trás dele os personagens de mangás brincam de desmentir tanta seriedade.

Há quem prefira instalar o celular ou o laptop perto de uma gravura, uma tela, até mesmo uma escultura. Pena que a porca muitas vezes torça o rabo e o que se vê na TV é um daqueles quadros comprados no espólio de um gabinete de dentista, com a personalidade de uma samambaia de plástico.

O fundo da sua imagem já faz parte da preocupação dos entrevistados. A roupa pode até enganar, você só capricha da cintura pra cima. Abaixo da linha do Equador corporal vem a bermuda puída, o pijama sambado, quem sabe uma cueca de antigos carnavais. Mas o que cerca o entrevistado ficará lá o tempo todo e arrisca-se a ser mais interessante que o assunto.

Há um componente curioso na estante nua do ministro. Livros – para quem estuda, para quem gosta de ler – equivalem a passaportes de nossa limitada existência para universos inexplorados. É nosso contato imediato com a humanidade.

O que alguém um dia imaginou, escreveu, produziu e publicou descansa em nossa estante pelos mais diversos motivos. Ou porque é importante pra nossa carreira, porque marcou nossa vida, porque foi presente de alguém querido. Enfim, nenhum livro chegou ali por acaso. À toa, livro nenhum fica.

Quando o ministro supostamente mais poderoso do governo aparece cercado por estantes desabitadas, podemos concluir que ele não tem nenhum livro de cabeceira, nem mesmo o Manual do Escoteiro Mirim. Essa é a explicação mais melancólica.

Outra é imaginar que o carioca Guedes sinta-se em apartamento provisório desde que o governo foi eleito, em 2018. Não se incomodou (nem teve quem se incomodasse por ele) com o vazio existencial de seus móveis. Talvez porque não pense em ficar muito tempo. Talvez porque não queira criar vínculos. Talvez porque não seja mesmo do seu feitio ter livros à mão.

Mas quando se mostra assim, tão desguarnecido, Paulo Guedes revela que alimenta pouco interesse pela produção cultural – mesmo que fosse uma literatura toda voltada pras teorias econômicas que o guiaram até aqui (a biblioteca que o ex-ministro e deputado federal Delfim Netto mantém na Grande São Paulo é, arquitetonicamente, o sonho de consumo de todo amante de livros).

A plateia vazia de um teatro nos enche de tristeza e solidão. Da mesma maneira, com tanto livro sem-teto dando sopa, uma estante oca – ainda por cima, por trás de um cardeal do alto poder – é apavorante. Alguém que consegue encarar diariamente uma estante assim e não sentir falta de nada é capaz de qualquer coisa.

 

 

Tia Cotinha e o moço de cueca

Nos últimos dias, minha linha do tempo no Facebook foi ocupada pelas mais diversas poses do atual secretário de Cultura, Mário Frias, envolto em insinuantes cuequinhas. A ideia era até rudimentar: a pessoa que se prestou àquele tipo de anúncio publicitário não tem cabedal para administrar, ainda que mal e porcamente, a cultura pátria.

Que Frias tenha capacidade para gerenciar nossas atividades culturais – e ainda por cima num governo especializado em desprezar nossas artes – é algo que nem se chega a cogitar. A folha corrida do moço, com destaque para meia dúzia de novelas, não o catapulta sequer para o Olimpo da cultura pop.

Vamos combinar uma coisa. Ter um corpinho mais ou menos e um rostinho fofucho não são obrigatoriamente pontos negativos. No momento em que – mais moralista do que moderna – muita gente se divertia expondo as intimidades do moço como razão para desmoralizá-lo intelectualmente, peguei-me pensando no quanto existe de Tia Cotinha em cada um de nós.

Tia Cotinha é o nome genérico que dou à personagem que já foi senhora de Santana, expoente da Liga das Senhoras Católicas e efervescente defensora da moral e dos bons costumes nacionais. Tia Cotinha não perdoa nudez, cigarro, bebida, palavrão ou qualquer saliência tropical. Incansável, Tia Cotinha vigia nossas safadezas mais secretas.

Resiliente, porque segue a moda, Tia Cotinha sobrevive, mesmo nos espíritos mais afeiçoados às lides democráticas. Mário Frias, certamente, apresenta várias outras razões para não ser a pessoa mais indicada para o cargo que, por enquanto, ocupa. Começando por suas credenciais frouxinhas e passando pela elegância de se oferecer ao posto quando Regina Duarte ainda por lá exibia suas levezas.

O que Frias fez com Regina não foi inédito. Muitas vezes, na vida profissional, vi esse tipo de comportamento. Em 1984, assisti chocado ao primeiro passaralho de minha carreira de jornalista – para quem não sabe, passaralho é o nome que se dá à demissão coletiva em uma redação.

Enquanto dezenas de colegas limpavam suas gavetas, em lágrimas, os telefones tocavam. Eram jornalistas de fora, perguntando se ia pintar vaga no lugar dos demitidos. Garantir o ganha-pão fala mais alto que certas noções éticas. Foi o que fez o ator ao se colocar à disposição do governo, queimando algumas etapas.

Na verdade, o que (perdão) pensa ou deixa de pensar o ilustre secretário pouco me interessa. Seria muita ilusão acreditar que, atingido por um vírus que faça pensar, o governo passasse a se interessar pela produção cultural brasileira. Abrigada na absurda pasta do turismo, a cultura já teve resquícios de quase brilho: à frente dela, estiveram um diretor de teatro cult, logo fotografado em arroubos nazi-fascistas, e uma atriz de prestígio popular até então inabalável. Ambos fritaram suas carreiras junto a seus pares.

A cúpula de churrasqueira que nos governa não iria muito longe em sua ideia do que é cultura. Sair de um diretor de teatro cabeça e chegar a um ator pouca coisa além de elenco de apoio em novela das nove é o máximo que essa cambada consegue. Não é o fato de o nomeado ter posado para anúncio de cuecas que o desmerece. Se fizer as contas, esse talvez tenha sido seu ponto alto na carreira. Usar a cueca do moço como motivo para desmoralizá-lo é tia-cotice demais.

Chico, no retrovisor

Faz tempo. Foi em 1990. Mas parece que foi há, sei lá, uns 15 dias. Do banco do carona, olhei pra trás e entabulei um animado bate-papo com os passageiros, o compositor Chico Buarque e sua então mulher, a atriz Marieta Severo. No volante, o dono do carro e assessor dos dois, Mario Fernando Canivello.

Não recordo o que conversamos – vagamente, lembro que, em determinado momento, criticamos Ipojuca Pontes, que na época era secretário de Cultura do governo Collor de Mello, tinha participado da extinção da Embrafilme e, por tabela, arrasado com todo o cinema brasileiro.

A sétima arte nacional recuperou o fôlego a partir de 1995, com Carlota Joaquina, Princeza do Brasil – dirigido por Carla Camuratti e estrelado por Marieta – e o casamento da atriz com Chico acabou em 1999. Mas, na minha memória, continuo “dando carona” a eles com o carro alheio.

Naquele dia, eu entrevistei Marieta para uma revista feminina, com fotos de capa realizadas num estúdio do Brooklin. Chico passou por lá para buscar a mulher e, juntos, irem para o aeroporto de Congonhas. Canivello, que ia levá-los, sugeriu: “Vamos juntos? Assim eu não volto sozinho”. Topei. E quando dei por mim, havia um ídolo no banco de trás do carro.

Eu já havia entrevistado (e tornei a entrevistar) muitos artistas. Mas passar alguns minutos com eles em situações cotidianas não deixa de ser engraçado. Também já vivera isso em outras situações. Em Paris, no comecinho dos anos 80, a cantora Nina Simone esbarrou no meu ombro direito e pediu “pardon” com tremendo sotaque. Em Londres, há poucos anos, participei da mesma parada pelos direitos LGBTQ ao lado do ator britânico Ian McKellen – tenho fotos que comprovam isso. Também em Londres, já esperei táxi na mesma fila que a modelo e atriz Jerry Hall, na fase pós-Jagger.

Já tomei cerveja com Alceu Valença no Recife e fiz compras num restaurante natureba do centro de São Paulo, ao lado do Edson Celulari, então no auge da beleza. E já peguei uns quatro ou cinco vôos com a cantora Alcione. Mas carona, em si – e para o Chico Buarque, ídolo absoluto – , foi a primeira e única vez. Não nos tornamos amigos, não trocamos telefones nem fizemos uma selfie (na época, ainda não se sonhava com isso).

Chico, claro, não deve ter anotado isso em seu diário. Mas eu, no papel de fã, guardo a efeméride. Deveria ser até mais fiel e guardar tudo em detalhes – qual a cor da camisa dele? Marieta estava de cabelo solto ou preso? Eu estava de jeans? Mas a memória é ardilosa, retém o que bem entende. Só ficou na lembrança a minha lerdeza em sair do carro para o casal descer, já no aeroporto. Não passou nenhum conhecido pra servir de testemunha!

Quando, por um desses movimentos sísmicos, nosso universo se entrelaça ao de algum famoso (nem precisa ser ídolo, mas alguém publicamente conhecido já vale menção) é preciso reajustar os ponteiros. Afinal, papel de artista é ficar de longe. Essa coisa de famoso pertinho da gente é meio barca furada para os dois lados. A intimidade revela defeitos, manias, distorções, nada adequado em quem admiramos.

Antes, ainda havia uma certa mística. Agora, com todo mundo expondo até o raio-X da arcada dentária nas redes sociais, acabou o respeito. Tem gente que nem pede licença e já vai enfiando o celular na fuça do famoso, tentando sacar uma foto que prove sua existência. A intimidade é tanta que ficou famosa a resposta da atriz Beatriz Segall a uma pessoa que perguntou se podia tirar uma selfie. “Pode, mas não abraça”.

Ninguém sobe na escala social por dividir a mesma fila que um famoso. Nem eles se submetem a um download civil. Nesse momento da história, em que quem merece aplauso é um bando de mascarados anônimos e incansáveis, achei legal perder um tempinho lembrando de algo que me fez sorrir. O prazer da lembrança ou a lembrança do prazer, já não sei. Mas é tão bom colocar novamente em perspectiva nossas pequenas e vãs humanidades.

Em nome da justiça: quem me deu a ideia de fazer uma crônica a partir desta carona foi o querido Vilmar Ledesma. A gente dá o crédito.

 

Instruções para dias melhores

Não sei vocês, mas eu abro a porta da frente do apartamento umas três ou quatro vezes por dia. Abro, olho o hall, bisbilhoto em que andar o elevador está e entro em casa, sem ter tocado em nada. Fingir que vou sair é a mesma tática que, diabético, desenvolvi nas docerias. Olho todos e pego nenhum. Já basta. Vejo com os olhos, lambo com a testa.

Abrir e fechar a porta, como se fosse sair finalmente do casulo, me faz lembrar do capítulo “Manual de Instruções”, do espetacular livro de Julio Cortázar, Histórias de Cronópios e de Famas, de 1962. Na obra, o escritor argentino (1914-1984) – munido de ironia e perspicácia – descreve detalhadamente gestos prosaicos, como chorar, subir escadas e matar formigas em Roma (ok, isso não é lá muito prosaico, mas vale a leitura).

Me pego pensando que vamos precisar de manuais para saber agir no dia que virá, o da libertação da pandemia. Como agir ao avistar um amigo na rua, já devidamente alforriado da máscara? Claro que, a depender do grau de amizade, o comportamento será x ou y. Mas, de todo modo, haverá um componente básico: o sorriso ao ver um rosto familiar.

O primeiro músculo a ser movimentado nesse instante é o zigomático maior, capaz de plantar em nosso rosto um sorrisão largo, de inequívoco prazer. Geralmente, com ele também movemos o orbicular dos olhos, dando aquela arregaladinha e consequente enrugada no cantinho das vistas. Tá valendo.

Caso, no meio da manifestação, você perceba que o amigo encontrado não é dos mais queridos, nem merece tanto esforço, entra em ação um músculo chamado risório, perfeito para sorrisos amarelos em situações de embaraço.

Agora, se for amigo à vera, vai rolar um abraço fraterno. Para tanto, precisarão estar em forma os grupos musculares do peitoral, braços e ombros, além de um tal de core. Abraço, para quem não lembra, envolve movimentos complexos. Ergue-se os braços até a altura da linha dos ombros. Os braços devem subir um tanto abertos. Parece que, quanto mais querido é o abraçado, mais os membros superiores estarão afastados.

A distância e o impacto do encontro do braço com o corpo alheio servem de demonstração explícita do sentimento envolvido. Segue-se ainda tapinhas nas costas (manifestamente comum entre homens) e beijos estalados nas faces alheias, preferencialmente simultâneos.

É bom treinar o corpo pra tanto exercício. Segundo a internet e um certo instituto médico de Viena, abraços sinceros ajudam a aliviar o estresse, reduzem a pressão arterial e melhoram a memória – no mínimo, você precisa lembrar o nome de quem está abraçando. Coisa mais constrangedora é abraçar o Geraldo e ele corrigir: É Norberto. Evite vexames.

Outro treino fundamental será o do diálogo. Após tanto tempo confinados estaremos aptos a encarar uma conversa assim, de prima? É preciso treinar em casa. Fique diante do espelho e faça uma pergunta. Responda em silêncio, o tempo necessário para a outra pessoa dar sua fala. Aí, e só aí, você retruca. É preciso que os dois lados saibam respeitar o tempo do outro. Haverá muito assunto acumulado querendo vazar.

Evitemos também as hipocrisias de praxe. “Você está ótimo” e “Não mudou nada” serão mentiras indesculpáveis. Cabelos desgrenhados, barrigas salientes, palidez de confinados, tudo isso estará à mostra nos primeiros dias. Aja naturalmente, até porque a sua aparência também dificilmente será a de um deus grego. Sejamos felizes em nossos reencontros.

 

 

Humilhados e ofendidos

Desde que começou a saga pelos 600 reais prometidos pelo governo aos mais necessitados, não paro de pensar nesse título, emprestado do romance de Dostoievski (1821-1881). Na trama publicada em 1861, o candidato a escritor Ivan Petrovitch vê sua amada Natasha ser jogada na miséria e na prostituição pelo príncipe Valkovski. É uma visão nada otimista e benevolente da sociedade russa do século 19 e, por mais triste que soe, perfeitamente adaptável ao Brasil deste alegado século 21.

A sina do Brasil é ser sempre descoberto em abril. Foi assim com o Cabral, nos idos de 1500. Foi assim agora, com o projeto do governo de pagar 600 reais aos cidadãos sem  sustento oficial. O Brasil dos gabinetes fez um planejamento para uns tantos milhões de infelizes a quem seria distribuída uma quantia capaz de amenizar a fome, quem sabe até trazer algum recheio às geladeiras vazias. Mas o povo desafinou.

A primeira descoberta veio já no dia de abertura do programa: o total de inscritos superava bastante o que se previa. Como há pobres neste país, não? E todos insistem em ter direito à mesada temporária, mesmo que vivam o tempo todo muito abaixo dos marcos civilizatórios criados pela classe média perfumada.

A segunda surpresa veio com o comportamento dos tais carentes. Por mais moderno que fosse o sistema de inscrição, por aplicativos e internets, eles insistem em não compreender as explicações. Correm às agências da Caixa como formigas atrás de doces, tumultuam-se em filas deselegantes e carregam nas mãos celulares que, francamente, os caçulas do poder atiram às paredes.

É tudo tão degradante quanto a decadência do personagem de outro romance, “A Humilhação”, do americano Philip Roth (1933-2018). No penúltimo romance de Roth, lançado em 2009, o ator Simon Axler chega à velhice em plena decadência profissional. A memória já não lhe permite encarar uma encenação de Shakespeare e, para apimentar, Axler se apaixona por uma jovem bissexual, por quem comete insanidades, que só o colocam em posições aviltantes.

Ao contrário dos personagens de Roth, nossos pobres circulam por aí sem o menor verniz de chiquê. Só carregam dos personagens de ficção o despudor em se humilhar publicamente, já que não lhes resta outra saída.

Diariamente, rádios e TVs trazem depoimentos de coitados a quem não foi dada a bênção de dominar a linguagem das redes sociais. Quando conseguem acessar os aplicativos, preenchem errado os formulários, ignorando instruções tão claras. Os “jênios” vassalos do poder devem achar que é proposital.

Expostos ao sol e à chuva, por vezes em ruas inundadas, com águas até os joelhos, estão brasileiros que o Brasil dos carpetes brasilienses ignorava. Eles não são apenas uns sem-dinheiro. São sem-instrução (em alguns casos), sem-CPF (e viveram até hoje sem precisar desse número bizarro) e sem-internet farta (quase todos). Muitos dependem da bondade de um filho, um neto, um sobrinho, talvez até a filha do vizinho, algum jovem que pilote a motosserra dos apps.

As instruções, por mais claras que pareçam, soam não a grego, mas a português culto, distante demais da linguagem das ruas. Soam à linguagem dos manuais de instrução, sempre escritos de uma maneira que a parte A nunca se acople à parte B. O Brasil fala muitos idiomas e, seguramente, o das classes sem direitos é o menos conhecido de todos. Não há Google translator que aproxime esses dialetos.

Expor os sem-nada à maratona de apps, formulários, respostas-padrão e distanciamento proposital é a cereja no bolo da arrogância. Você não apenas precisa dizer que precisa. Você tem que rastejar em filas vexatórias, tourear invencíveis moinhos de informática e reconhecer, ao vivo e em cores, que é um coitado em todos os sentidos do termo.

Sempre que encontra brecha, o presidente da Caixa bate no peito envolto em ternos caros, dizendo que todas as ações do banco são “de graça”. Deve estar à espera de elogios, como se um banco pago com nossos impostos não tivesse a obrigação social de ajudar quem precisa sem cobrar. Ah, aqueles 600 reais não sairão de graça.

 

 

 

A água da memória

Em 1950, quando escreveu a letra da guarânia Recuerdos de Ypacaraí – talvez a canção paraguaia mais famosa do mundo -, a argentina Zulema de Mirkin nunca havia pisado no país vizinho. Seguiu apenas as lembranças de seu parceiro na canção, Demétrio Ortiz. Talvez por isso, a letra retrata um lago que nunca existiu.  (ou só se garantia na memória paraguaia de Ortiz).

As águas de Ypacaraí nunca foram azuis. São enlameadas, na verdade. Bem feinhas, zero românticas. Mas o que ficou pra eternidade foram as noches tíbias, quando se cantava lindas melodias em guarani. A memória – seja de um passeio, seja de um passado – serão sempre mais fortes que a realidade. Cada um carrega seu próprio lago azul de Ypacaraí.

Lembrar de um passeio ou de uma viagem é sempre bom. Algumas excursões me voltam à memória sem que eu as convoque. Voltam, por conta própria. Quando estou na academia, fingindo que me alongo, me vejo sempre saindo do Hotel Belle Epoque pra passear por Veneza. Na piscina, entre uma hidro e outra, quase sempre me vejo ao ar livre em Portugal. Deveria ser o contrário, a piscina deveria me lembrar Veneza, mas a nossa mente não segue desígnios muito lógicos.

Cheiros também me lembram lugares. Lenha queimada me coloca imediatamente em Ouro Preto, à janela da República Basiléia, onde cheguei por recomendação de uma amiga, no apagar das luzes da década de 1970. Quando voltei no ano seguinte, levei dois LPs de presente, mas o aparelho de som tinha sido roubado durante uma festa – e só se deram conta dois dias depois. Ou a festa estava ótima ou um fiasco. Pelo espírito da rapaziada, devia estar boa demais.

Toda viagem tem pelo menos um momento que vai ficar para sempre. A caminhada por uma rua sem graça em Belém. Uma gargalhada no meio do museu napolitano. Uma criança cambojana pedalando uma bicicleta enorme sem ligar para o templo budista às suas costas. Um sapo do tamanho de uma capivara, que entrou no banheiro da pousada, no Pantanal. A ameaça de passar uma noite em claro em pleno inverno dos Pirineus. O surgimento de um pedreiro catalão, que fez as vezes de anjo da guarda e ajudou a encontrar uma pousada. Toda viagem acrescenta algo às biografias de cada um.

Ultimamente, as recordações chegam pela rede social. Todo dia, quando abro o Facebook, caem no meu colo as lembranças de um, dois, quatro, oito anos atrás. Quase sempre é uma memória boa. Estou em algum lugar muito legal – há dois anos, estava na Sicília, vejam só – acompanhado de pessoas queridas, sorrindo, feliz, serelepe. O que o Face me recordará daqui a um, dois, quatro ou oito anos?

Estarei sozinho, brincando com o gato da vizinha, exibindo o risoto que acabei de fazer ou o drinque em que testei meus dotes de barman. Poucas variações em torno do tema. Poderemos, todos nós, resgatar o cardápio desses dias turvos. Vai dar pra fazer um festival de bolos e pães caseiros, acredite. Alguns, dignos de aplauso. Outros, de esquecimento mesmo. Como na vida, aliás.

Riremos disso tudo. Toque-se a vida, com ou sem fanfarra.

 

 

Futuro de um pretérito

De uma hora pra outra, tivemos que interromper os planos mais prosaicos. Chamar amigos pra almoçar em casa, sair pra comer uma feijuca, partir numa expedição em busca da caipirinha perfeita, tudo isso virou fumaça. Um dos prazeres filosóficos da existência, que é justamente esboçar o futuro, foi suspenso abruptamente – pelo menos, pros seres humanos que não abrem campanha contra o isolamento social.

Brincando com a música de Moska, já pensou no que você faria – ou fará, sejamos otimistas – no primeiro dia pós-quarentena? De que maneira aproveitar os primeiros instantes do resto da sua vida? Vai correr pela rua, ignorando cruzamentos, ladeiras e lombadas? Vai pular estrela, brincar de amarelinha, fazer o quadradinho? O primeiro dia de liberdade vem repleto de opções.

Você pode marcar uma live de verdade. Pode, sei lá, dar um abraço apertado nas pessoas queridas. Um beijo estalado em cada bochecha há muito tempo escondida. Catar alguém pela cintura sem medo de levar um tapa na cara. E se levar, gente, será um toque humano! Quer prazer maior?

Vai todo mundo andar de mãos dadas pela Paulista, independente de ser namoro ou amizade. É gente ao alcance da mão! E como o ser humano depende desse toque, desse calor emitido por outro bípede humanoide! Não deve ser por outra razão que, nos países árabes, os homens trancam as mulheres em casa e, nos cafés, bebericam seu chá de menta com mãos dadas. A pele do outro é que nos dá a dimensão do humano.

Alguns amigos meus acham que o beijo-abraço-aperto de mão será por muito tempo ainda somente um título de peça do Naum Alves de Souza. Partilhar um drinque, sabe quando? Esquece, diz o Arnaldo. Tomara que ele esteja exagerando, se bem que eu nunca gostei de dividir copo.

Você já fez a lista de quem convidará antes de todo mundo pra um encontro, um drinque, um café, um chamego? Vai aproveitar a quarentena pra fazer uma faxina sincera nos seus contatos? Gente que você só encontrava por inércia e que, no isolamento, provou ser bem esquecível? Ah, o destino jogou uma chance de ouro em suas mãos!

Quando se abrir novamente para o mundo, qual será seu primeiro impulso? Talvez – veja bem, é só uma sugestão – a melhor coisa seja respirar fundo, sentar-se à janela e ver o povo disparar loucamente pelas ruas. Nada de se sentir obrigado a despirocar. Ficar em casa por opção será o mais chique dos gestos.

 

 

 

Espírito pascal

Páscoa nunca esteve entre os meus feriados preferidos. Filho de uma família católica, cresci ligando – como deveria ser – a idéia de sofrimento aos dias que antecediam o domingo. Pior: para mim, Semana Santa era sinônimo de jejum, uma prática que só os adultos do clã praticavam. Felizmente, quando cresci, já haviam caducado alguns preceitos religiosos entre pais, tios e avós. Livrei-me.

Mesmo assim, escapavam alguns traumas pelos vãos dos dedos. O bacalhau, esta iguaria que faz salivar as estátuas, não me impressionava muito. Famílias operárias nos anos 60 não dispunham de caixa para um bacalhau carnudo. Era sempre a parte mais próxima à cauda, pele e osso prevalecendo sobre o que deveria ser o peixe. Bacalhau era um sabor ou, como se diz hoje em dia, um conceito.

O tempo passou, os bolsos melhoraram, já fui à fonte lusitana dos melhores pratos de bacalhau e, sim, posso dizer que venci o trauma. Menos a ojeriza a pele de peixe, essa não abandono nem por decreto.

Durante outro tanto de anos, Páscoa era um nome de mulher. Nossa vizinha se chamava Páscoa e todos nós achávamos curioso alguém ter nome de festa. Páscoa atravessou a existência solteira e, devido a um acidente de trabalho, usou peruca a vida toda. Talvez por isso a criançada não sacaneasse com ela. Páscoa era do bem.

Depois que fui trabalhar em jornal diário, o feriado prolongado que a tantos animava perdeu o sentido. A não ser pelo acaso do sorteio, eu trabalhava na Semana Santa. Confesso que preferia trabalhar no Carnaval, muito mais animado, pra cima – exceto no ano em que a Folha cismou que o repórter precisava saber o nome de todo mundo que era fotografado num baile ou desfilando na avenida. Um inferno. Semana Santa era tranquila até demais, uma interminável lenga-lenga de procissão, malhação de Judas e lava-pés, tudo muito entediante.

Com o nascimento de sobrinhos e filhos de amigos, Páscoa virou definitivamente uma corrida pelos ovos de chocolate. Nem mesmo a diabetes que assola o clã impedia o desfrute, pois a indústria tratou de lançar os diets todos, sem açúcar e preço elevado. Mas tinha, pelo menos, ninguém ficava com cara de cachorro caído da mudança.

Seja como for, Páscoa acabou virando outra coisa. Era a chance de reunir alguns amigos desparelhados ao redor de uma mesa alegre. Bebida farta, piadas incorretíssimas, comida gostosa. Quem precisa de mais? Este ano, experimentamos um domingo de Páscoa muito borocoxô, sem a gritaria dos que gostamos, sem as queixas, os resmungos, os brindes e os doces trazidos por quem não quer chegar de mãos abanando.

Este ano, a Páscoa não foi de comunhão, uma palavra que em sua origem mais profunda significa “repartido com todos”. Foi uma festa de telefonemas, zaps, video-chamadas e fotos de comidas feitas em casa. Se fosse um filme de Hollywood, sairíamos desta com a alma fermentada de boas intenções e com o materialismo jogado no lixo. Mas olhe em volta, você não está na tela de “A rosa púrpura do Cairo”, o genial filme em que Woody Allen mistura sonho e vida na mesma cena.

Qual será nossa maior sede no fim dessa quarentena? De chope com os amigos, vinho com amantes, feijoada com a quadrilha, chocolate com a molecada? A exemplo das micaretas, os carnavais fora de época, teremos uma Pascualeta? Fica a dica. E, vá lá, uma feliz Páscoa dentro da toca.

 

 

Colaterais

O velho é o novo gay. Tenho certeza que muita gente lembra das primeiras notícias a respeito da Aids, na primeira metade dos anos 80. Era a “peste gay”, diziam os jornais e os preconceituosos. Era o castigo divino pela farra dos anos 70, quando ninguém era de ninguém e Carnaval era mais que três dias de folia.

Aos poucos, as pessoas foram se tocando. A Aids não “pegava” só em gays. Atingia qualquer pessoa que fizesse sexo sem camisinha. No começo, a perseguição maior era em cima de assanhados e assanhadas, cuja variedade de parceiros era quase folclórica. Mas havia casos drásticos – como o da garota virgem que, em seu primeiro relacionamento, com o namorado, contraiu Aids. Naquela época, o diagnóstico positivo era a cordinha que soltava a lâmina da guilhotina. Morte certa.

A Covid-19 e o Corona fizeram uma parceria infernal, com turnê garantida nos cinco continentes. Virou pandemia e continua matando gente a todo vapor. Logo no começo, diziam – na verdade, ainda dizem – que as vítimas em potencial são os idosos. O grupo foi ampliado com portadores de doenças pré-existentes (diabéticos e outros). Até aí, tudo confere, o que mais tem no mundo é velho diabético ou com “um probleminha no coração”.  Mas o buraco, meus anjos, é mais embaixo.

Ser velho e/ou diabético não garante mais fila preferencial. Tem morrido gente jovem, tem morrido pessoas saudáveis, tem morrido pessoas que, numa primeira olhada, não entrariam na lista vip do corona. A doença pega, não se sabe direito como, e ataca, sabe-se lá por quais frentes de batalha. Cada caso tem suas particularidades.

O que sabemos de certo, até agora, é que o Corona chegava pelas asas de algum avião. Atingia quem tinha viajado pro Exterior e seus mais íntimos. Espalhava-se, já sem perguntar sobrenome, influência digital ou saldo bancário. Houve quem tenha contaminado a empregada e, ela, por sua vez, levou o corona pra conhecer as periferias brasileiras. O diabo não pensaria num roteiro melhor de desgraça.

Já que minava as bases das classes mais favorecidas, o vírus mereceu uma atenção mais especial de todos. Sistema médico, saúde pública, medidas de saneamento, tudo girou em torno desse conceito: era uma doença diferenciada. Tanto é que as normas de prevenção cruzam a linha do outro sistema solar quando recomendam, com ênfase, o distanciamento social.

Como evitar o contato com os parentes mais próximos se você mora num quarto-e-cozinha entulhado de móveis e pessoas? As camas são feitas todas as noites com colchonetes que passam o dia empilhados, naquele fuzuê que todo vírus muito aprecia. A toalha de banho é uma só pra muitos – em casas que têm água, claro. As crianças dormem com seus pais na mesma cama e sempre ganham um irmãozinho no fim da temporada. Isolamento social, com muita sorte, no banheiro, se tiver tranca na porta.

As regras para o transporte público seguro também beiram o “comam brioche” da Maria Antonieta. Cheguei a ouvir “evite viajar de pé” para passageiros que passam uma hora à espera do lata-velha que vai levá-lo para o trabalho ou de volta para casa. Não tem ônibus suficiente, meu anjo, tem que se jogar no primeiro que garanta um lugar. As normas deveriam ser prescritas apenas por quem já tivesse passado pela experiência – o ônibus que circula dentro da USP não é referência, I am sorry (em inglês, eles prestam mais atenção).

Estamos no meio de uma batalha ardida. Música, livros, filmes, conversas, até trabalho, vale tudo pra nos prender ao lar. Eventuais saidinhas ao supermercado ou à farmácia ganham aquele ar de travessura, como se estivéssemos novamente apertando campainhas e correndo antes que abram a porta. A caça ao tesouro, agora, tem território limitado, não importa a sua faixa etária. Ao contrário do que apregoam os rueiros, ficar em casa é a verdadeira aventura rumo ao desconhecido.

 

O centésimo segundo dia

Até aqui, tudo bem com o isolamento social. O mercadinho entrega as compras, o motoboy traz a pizza e a gente nem precisa mais dar gorjeta. Dá pra economizar na quarentena! Também não se corre mais o risco de encontrar aquele vizinho mala no elevador. Se notar que vai parar no andar, dá uma tossidinha e a pessoa desiste de entrar. O mundo é dos espertos.

Mas reconheço que  contato humano faz falta. Encontrar a galera pra uma cervejinha ou reunir os mais íntimos pra um almoço, com vinho e risoto, ah, há quanto tempo. Três meses e meio, mais precisamente. Mas sobrevive-se. E se economiza, pensa no lado bom da coisa.

Há contratempos, claro. As roupas, por exemplo, estão todas sujas. Já ando repetindo a mesma camiseta por dois ou três dias. Cueca, idem. Meia, nem tenho usado. Aliás, cueca é meramente convencional. Pra quê? Basta só eu ficar preso. O cabelo também tá meio desalinhado. Cem dias sem uma tesourada me deixaram com cara de Guga Chacra sem Nova York ao redor. Podia ter deixado a barba, pra fazer um combo capilar, mas todos os sites recomendam a raspagem total das caras. Adeus, visual lenhador!

O estoque de gordices tá no fim. Nas prateleiras dos mercados, já não se encontram as pequenas maravilhas da gastronomia quarentenal, como amendoim japonês e pipoca de microondas.  Nem com temperos intragáveis. Que tanto esse povo precisa de pipoca, me explica?

Outro ponto chato:  o mau cheiro que vem dos arredores. Por isso, é fundamental manter as janelas fechadas. A vizinha do prédio ao lado, por exemplo, deixou a janela da sala aberta e, de lá, vem uma catinga dos infernos. Já chamei a velha – é uma velhota – várias vezes, mas ela tá lá deitada vendo TV há dias. Não muda de posição. Como eu só vejo as canelas e os pés envoltos numas pantufas cafonas, não consigo nem fazer um gesto mais largo pra chamar a atenção. E nem tenho como chamar o porteiro do prédio dela. Ninguém pode sair de casa por motivo fútil.

Já vi todas as séries do Netflix. Até as chatas. Daqui a pouco, vou começar um ciclo de filmes do Adam Sandler. Só tem dublado, mas tudo bem, letrinhas demais às vezes cansam. O último sabonete já era e agora eu lavo as mãos com aqueles troços de  limpeza pesada. Funciona, embora deixe as mãos meio ásperas. Mas como a única pessoa que eu tenho acariciado sou eu mesmo, fica tudo em casa.

A convivência forçada com meu eu interior me fez enxergar lados que as perucas sociais encobriam. Uma espécie de calvície metafórica. Nem sempre o que avistamos é o the best of  minha pessoa, mas é o que temos para o momento. Quer um exemplo? Esse negócio de acreditar que o vírus pega nos outros, mas eu tô livre – esquece. O medo, quando se instala, é definitivo. E é o medo que garante a sobrevivência das espécies. Os bravos e teimosos são os primeiros a cair em combate, despedaçados pelos leões da realidade.

Um dia, isso tudo vai acabar. Vamos reaprender a conviver em sociedade, sair de casa, encontrar amigos, abraçar os que queremos! E eis que surge a chance de resgatarmos velhos valores como dizer “bom dia”, “com licença”, “por favor” e “muito obrigado”. Vamos extrair pérolas dessa lama. Ou veremos flores brotarem das ostras. Algo assim.