Vírgula noventa e nove

O aviso está em todos os supermercados, lojas e pontos comerciais do país. Qualquer coisa tem um preço que termina sempre em vírgula noventa e nove. Arrematar o valor de um produto assim diz muito sobre o brasileiro e seu caráter. Somos a indômita nação do 0,99, a pátria dos preços de mentira, a terra do quase-lá.

Temos vergonha de cobrar 20 reais por alguma coisa e sapecamos logo um 19,99, como se esse centavo ausente – capaz de alterar a dezena – oferecesse realmente uma pechincha ao comprador. Não é 20, é 19,99! O fato de não existir mais a moeda de um centavo para o troco é questão de menor importância. Cobra-se por algo que não vai ser devolvido e fica tudo por isso mesmo.

Nos grandes eventos internacionais, como a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos, um dos maiores mistérios para os estrangeiros deve ter sido o preço das coisas. A malemolência tropical, o gingado brejeiro, a intimidade com situações de violência – nada disso deve ter intrigado mais os visitantes do que nossa tendência a não dar nem pedir troco. Para os estrangeiros, a expressão “não tem troco” simplesmente não tem tradução. “Saudade”, eles sabem o que é. “Sem troco”, não.

Chicletes e balinhas sempre foram o troco informal do brasileiro. Com o hábito de pagar muita coisa em cartão, os doces agora não passam de guloseimas. O problema fica mesmo restrito à inexistente moeda de 1 centavo. O gringo pode resmungar a falta dela, mas nós – brasileirinhos, malandros, espertos – já damos por barato: o preço real é sempre 1 centavo acima do cobrado. Mas como a dezena é mais baixa, saímos com a ilusão de ter pago menos.

Deixar pra lá é uma espécie de esporte nacional, praticado diariamente por todos nós. Quem reclama é o estressadinho, mesmo coberto de razões. Quem exige, faça-me o favor, empata a fila, atrasa todo mundo. Junte-se a isso o hábito das prestadoras de serviço se lixarem para a satisfação da clientela. Você reclama e cai no vazio. Deixa pra lá.

Minha amiga Gabriela Erbetta disse uma vez que o link “fale conosco” de muitas empresas virtuais deveria vir com o acréscimo “mas nós não daremos a mínima”. Seria a mais sincera das manifestações comerciais, de longe.

Imaginem se todo mundo, num ataque súbito e incontornável de consciência cidadã, exigisse o centavo de troco. Ninguém mais pagaria em cartão, só em dinheiro – e se faria questão do troco, centavo por centavo. “Ah, que é que tem, é só um centavo” ou “Vai fazer o quê com um centavo?” seriam frases proscritas. Afinal, de centavo em centavo, no fim do dia, o comerciante fatura um dindinzinho bacana. No fim da semana, calcule, haverá uma boa féria. Ao fechar o mês, lucro líquido e certo.

Por que chegamos a esse degrau do masoquismo comercial? Junto com o centavo, deixamos pra lá um pacote inteiro de direitos, de respeito, de cidadania. E nem tem mais o chicletinho pra nos adoçar a boca.

O doutor e o goleiro

Foram duas cenas na mesma semana. Numa, um goleiro julgado e condenado pela morte de uma ex-namorada com requintes de extrema crueldade. Em outra, uma ex-autoridade do Judiciário na noite de autógrafos de seu livro de memórias. O goleiro acusado de assassinato voltou a jogar e não consegue sair à rua sem ser interrompido por pedidos de selfies – feitos especialmente por mulheres. Já o doutor amargou um ostracismo constrangedor e totalmente inesperado para quem frequentou os andares mais altos do Poder.

A serem verdadeiras as acusações, o goleiro levou a cabo um plano cruel de homicídio contra a mulher com quem tivera um filho. Já o doutor contou em entrevistas – feitas para atiçar a leitura de seu livro de memórias – que por pouco, muito pouco, não cometeu um assassinato em pleno supremo tribunal. Por duas vezes, chegou a levar o dedo ao gatilho e recuou. O bom senso venceu – só neste dia.

O que as notícias desta semana mostram é que as pessoas andam respeitando mais o assassino cruel do que o doutor auto-controlado. Será que haveria mais gente na fila de autógrafos se o doutor tivesse cumprido sua missão fúnebre? Ao recuar do gesto mortal, o doutor igualou-se ao homem comum, que pensa – ou deveria – cada passo. E ainda recebeu de sua quase vítima, o diagnóstico: “Ele precisa se tratar”. A capacidade de “perdoar” pode ser ainda mais cruel do que o ataque.

Nas tragédias gregas e shakespearianas, o herói avança, espalhando sangues, ossos e vísceras por todo lado. E por isso conquista o título de herói – ele chega ao ponto em que nós, pobres mortais, jamais teremos culhão de chegar. O goleiro da nossa fábula contemporânea não tem nada de heroico em seu caminho. Mas a pecha de feminicida não incomoda as mocinhas sapecas que o cercam. Por que uma mulher fica eufórica ao tirar fotos ao lado de um provável assassino de outra mulher feito ela?

Da mesma maneira, fico me perguntando em que degrau da escada foi interrompida a escalada do doutor na pirâmide dos poderosos. Ele deixou o cargo, ok, mas já faz tempo. Teve uma gestão bem controversa, mas quem nunca? Teve vontade de acabar com a raça de quem atacou sua filha – mas, novamente, quem nunca teria ímpetos desses ao ter um dos seus ameaçado? Ao contar sua história, dando a ela ares de super-herói, o doutor ativou a kriptonita que tempera a sociedade atual.

As duas cenas noticiadas nos jornais da semana mostram muito do que somos hoje. Cruéis e implacáveis – especialmente com os que fraquejam.

 

Desobediência Civil Já!

Os casos vêm se acumulando a cada dia. Primeiro, foi uma peça do grupo Clowns de Shakespeare, no Recife. Depois outra, na Caixa. Depois outra no CCBB – “Caranguejo Overdrive”, peça de Pedro Kozovski montada há alguns anos pela Aquela Cia de Teatro foi desprogramada de uma mostra no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio. A coisa não parou por aí. Ainda esta semana, houve mais “desprogramação” de espetáculos previamente combinados para ocupar espaços públicos conhecidos por sua atividade cultural variada.

Não é aleatório, não é por acaso, não é coincidência. Considerados inúteis pelo setor conservador da sociedade, os artistas – atores, escritores, pintores, técnicos, músicos, cantoras, etc – são o alvo preferencial do ódio oficializado. O argumento – usado inclusive por gente que se arvora de alfabetizada – é que ninguém precisa de artista. Precisa-se de médico, mecânico, eletricista, podólogo, dentista e diarista. Mas de artista ninguém carece.

É como se uma sociedade digna desse nome pudesse prescindir de qualquer trabalhador ou profissional. É como se fosse possível viver tranquilamente sem música – mesmo aqueles funks pornôs e os pagodes mela-cueca  que a minionzada adora ouvir na churrasqueira do prédio. É como se eles, do alto do pires em que edificam sua cultura, pudessem viver sem a novela, a série, o gibi, o filme de ação. Tudo feito por artista.  De direita, de esquerda, tanto faz, mas artista.

A censura, oficialmente, não pode ser aplicada. Ainda restam alguns juízes que dão ganho de causa aos artistas. Mas não dá pra viver assim, na dependência química do humor de um magistrado. Não se paga conta com habeas corpus.

Agora, os censores fecham o cofre e danem-se os profissionais que dependem daqueles caraminguás pra pagar os boletos. Dane-se o público, que busca na peça, no filme ou na música alguma diversão ou explicação de vida. Danem-se todos.

O regime militar, também conhecido como Ditadura, sufocou as manifestações artísticas até não poder mais. Quando os ventos democráticos sopraram, achamos que estávamos livres do tacão. Nada. Em 1986, o então presidente José Sarney e seu ministro da Cultura – o insigne intelectual Celso Furtado – proibiram a exibição do filme “Je vous salue, Marie”, de Jean-Luc Godard. Na obra, a mãe de Jesus é uma jogadora de basquete que engravida e questiona a gestação. No mundo inteiro, as pelancudas católicas se ouriçaram. No Brasil recém-democrático, Sarney tomou partido dos católicos. Não adiantou nada, os evangélicos cresceram com tudo.

Na época, a facção intelectualizada da sociedade partiu pra ofensiva, organizando atos de Desobediência Civil. O governo proibiu a exibição pública do filme? Pois não pode proibir que se reúnam amigos em torno de uma sessão-pipoca. Eu mesmo fiz isso, consegui uma cópia em VHS do filme e juntei um bando de gente lá em casa. Houve ações do tipo por todo lado.

Mas, agora, o que podemos fazer? Se nem greves de carteiro e bancário param o país, que dirá técnicos e artistas de braços cruzados? Acredito na Desobediência Civil. Mesmo. Se vetamr a peça, fazemos uma leitura na praça. No bar do amigo. Na casa de não sei quem. Vamos apresentar o concerto improvisado, sem luz nem figurino. Vamos mostrar que estamos vivos e resistentes. É o teatro de guerrilha, suado, feio, sem cenário, sem belezura.

O maior entrave à mobilização é a rede social. O camarada escreve sua indignação no face, no insta, no twitter e julga ter lutado o grande combate. Não, amiguinho. Post não vira porra nenhuma (pra usar um vocábulo adotado pelo cacique-mor).

Tá na hora de enfrentar de cara limpa os verdadeiros sórdidos dessa história.

 

Quitéria, 79

Ainda na cama,  fiz as contas. Se estivesse viva, minha mãe estaria completando 79 anos hoje. Nunca pensei nela como uma senhorinha de quase 80. Ela cristalizou com os cabelos tingidamente castanhos, a pele com razoável brilho e elasticidade, ainda na flor dos 65, que foi a idade com que morreu. Pensando bem, era nova. Sacanagem dos efeitos secundários da diabetes que todo o ramo materno carrega e transmite pros os descendentes.  Foi assim, a gente lamenta, mas não tem como lutar contra.

Na pia batismal, dona Quitéria era Lurdes e assim foi até 1958, ao casar-se com o rapagão que viria a ser meu pai. O escrivão do cartório avisou que a noiva precisava mudar o documento – e ele mesmo deu entrada nas coisas. Onde havia Lurdes nasceu Quitéria e, dali em diante, minha mãe tinha o nome com que era conhecida na família toda e o outro, o oficial, que aparecia em seus documentos. Pra coitada se aposentar foi um deus nos acuda – a certidão de nascimento não batia com a do casamento…

Meus pais nasceram num lugarejo até hoje pequeno do Agreste pernambucano. De grande ali perto, só Garanhuns – onde havia um colégio de freiras no final dos anos 40. Da janela de sua casa na praça principal, a pequena Lurdes morria de vontade de usar os uniformes das alunas do colégio. Minha avó – a Quitéria original – cortou a onda, não ia deixar a filha dela se aventurar 30 quilômetros adiante. “Se não fosse por isso, eu teria estudado”, lamentou ela uma vez.

Numa outra ocasião, conversando sobre o período em que meu irmão caçula e eu éramos pequenos, lembrei que meu pai nunca foi muito de passear com os filhos. Fui desmentido por d. Quitéria. Ele só nos levava na garupa da bicicleta quando tinha sobrado algum troco do salário recebido na tecelagem do Brás. Quando a grana murchava, ele tinha vergonha de não poder comprar algum doce pra gente. Vergonha! Foi essa a palavra.

Durante os quase 20 anos em que viveram casados, meu pai era o Supremo Provedor. Minha mãe fazia uns bicos – bordava roupas de cambraia para bebês, encomendadas por uma loja da Rua da Consolação. Só quando ficou viúva, aos 36 anos e com dois filhos menores de idade, foi que minha mãe saiu de casa para colocar comida na mesa. Foi sua primeira ida sozinha a um supermercado, sem a tutela do marido.

A pensão do INSS era mirrada. Na floricultura de uma tia, ela apanhava pacotes de rosa, fazia pequenos ramalhetes e saía pelas ruas, vendendo de porta em porta. Os espinhos sangravam os braços, mas o que exigia muito dela era vencer a timidez e oferecer flores a estranhos. Foi um período curto, mas marcou minha lembrança. Até hoje, quando vejo uma mulher vendendo coisas na rua, imagino uma dona de casa sem marido e com filhos pra sustentar. Pode ser uma guerreira de verdade e não dessas que sobem no pódium porque conseguiram desconto na loja de grife.

Minha mãe morreu no meio da Copa do Mundo de 2006. No velório, um primo apareceu com uniforme da Seleção e não se pode negar que foi notado. A missa de sétimo dia foi marcada por minhas tias – hoje também já falecidas – bem no horário de um jogo do Brasil contra o Japão (ganhamos de 4 a 1). Na qualidade de primogênito, fiz mudar. A pobre Quitéria não merecia ficar com zero de Ibope. Já bastava não poder usar o uniforme do colégio das freiras.

Minha mãe não teve tempo de ficar velhinha. Conheceu os três netos, produzidos por meu irmão e sua então mulher. Mas não chegou a se encontrar com a pequena Laura, sua bisneta. É assim. A vida segue.

 

 

How do you do, Portugal?

Há pouco mais de dois meses, estive em Portugal, matando uma saudade que já durava 12 anos. Nesse meio tempo, muita coisa mudou na terrinha. E se eu lembrar que morei em Lisboa e Porto em 1981, então, aí é que as coisas mudaram mesmo. Naquela época, éramos ambos jovens – eu e a democracia portuguesa (a Revolução dos Cravos, em 1974, ainda cheirava a fraldas).

Portugal é outro. Definitivamente. Nos anos 80, brasileiro só ia conhecer Lisboa depois de percorrer feito peregrino destinos mais nobres, como Paris, Madri e Roma – o que os próprios portugueses chamavam de “a Europa”. A pátria lusitana entrou na União Européia, recebeu fartas injeções financeiras, renovou-se toda e entrou de vez no roteiro dos turistas.

Não falta motivo pra conhecer Portugal. As cidades são lindas, o povo é de uma ranhetice simpática e a mesa é fartíssima. Sem falar no vinho, claro. Os hotéis prestam um atendimento de primeira, os trens são confortabilíssimos e os museus, de cair o queixo. Mas algo se perdeu nesses quase 40 anos.

Aquele Portugal mais – digamos – raiz ainda respira, mas por aparelhos. Se antes, a influência mais marcante era a francesa devidamente traduzida (as lojas de roupas feitas eram “de pronto a vestir”, versão do francês pret-a-porter), agora quem apita por lá é o inglês.

O comércio, os restaurantes, as placas, tudo tem versão inglesa – quando não aparecem somente na língua de Shakespeare. É como se para ser moderno fosse preciso abrir mão até da própria língua. Tudo bem, já passamos por isso no Brasil, mas aqui sempre foi terra subserviente dos costumes euro-norte-americanos. Portugal, não, Portugal tinha seus pruridos. Tinha.

Até mesmo os garçons de Lisboa, quase todos importados da Índia ou do Paquistão, só sabem se comunicar em inglês com a clientela. Na região do Rossio, é mais fácil pedir um cod fish do que um bacalhau com natas. No Porto, ainda se encontram garçons lusitanos ou, quando muito, brasileiros. Soa até exótico.

Não espanta, portanto, que muitos brasileiros respirem aliviados quando encontram um serviçal mineiro ou baiano. Fica mais fácil de se fazer entender. O chato é que esses turistas não se embananam com os indianos, mas com os portugueses mesmo. O olhar chocado de “Hein?” é a característica mais marcante do turista verde-amarelo em terras rubro-verdes.

 

Meu momento João Gilberto

Foi rápido e passageiro, mas marcante. A cena aconteceu numa churrascaria bacanérrima dos Estados Unidos, a Morton`s, se não me engano. O ano foi 1996. Estava lá para participar de uma grande feira anual de turismo, na qual os EUA juntavam 5 mil almas para vender e comprar suas atrações. Cada ano, a feira rolava numa cidade diferente. A sede daquela vez era Nashville, terra do country, do bourbon e das carnes.

Era um grupo grande de agentes de viagem e jornalistas, basicamente todos vindos dos mercados mais consumidores – à época – do turismo norte-americano: japoneses e brasileiros. A carne era boa e muita e a bebida, mais farta ainda. Lá pelas tantas, assanhados pelos vapores de uísques e chopes, os japoneses se levantaram e fizeram um coro, cantando uma canção lá deles. Todos cantaram. Foi bacana.

Animado pelo álcool, achei que o Brasil precisava marcar seu território. Confabulei com a repórter do Jornal do Brasil, a Rosa, e decidimos por uma canção inegavelmente verde-amarela. Ousados, como só os briacos sabem ser, soltamos o gogó. Ao lado da gente, o editor de turismo da Folha, Silvio, queria se enfiar sob a mesa. “Olha o mico!”

Imbuídos de patriotismo, Rosa e eu – auxiliados por um coro de outros brazuquinhas – atacamos de “Garota de Ipanema”, aquela mesma, de Tom e Vinicius, conhecidíssima no mundo inteiro e relativamente fácil de cantar. Ainda mais, pra um grupo de japoneses que nos olhava com admiração.

Sem o menor risco de auto-crítica, nos sentimos cheios de graça no doce balanço a caminho do mar. Ah, se ela soubesse que quando ela passa, o mundo sorrindo se enche de graça. Mandamos bem. Mais que isso. Foi apoteótico.

Fomos aplaudidíssimos pelos japoneses, porque cantamos com tal facilidade, malemolência e ginga! Ah, a bossa nova de João Gilberto marcara mais um pontinho nas noites feéricas do mundo.

Até hoje, lembrando do fato, não sei porque um olheiro – ou ouvideiro – não nos contratou para iniciar carreira nos palcos de Tóquio, Quioto ou Osaka. Que chance, my God, que chance!

Dona Dina

Outro dia, no metrô não muito cheio, um trio chamava a atenção. Vestidas com suas melhores roupas, mãe com filha pequena, de uns 4 anos, e Avó, com mais de 60, seguiam atentas para a Estação República, onde fariam correspondência para a zona leste. Tudo espantava a Avó, tudo era novidade para a Neta. A mais velha falava em voz tão alta com as outras que, sorrindo sem combinar, o vagão inteiro passou a acompanhar a conversa. Eu era dos que sorriam, por fora e por dentro.

Em algum canto do meu baú de memórias, aquela mulher me lembrou a Dona Dina, uma figura que orbitava por minha família, quando eu tinha, sei lá, uns 10 anos. Era, acho, a segunda mulher de um tio de minha mãe. Ou só alguém que minha mãe conhecera ainda no interior de Pernambuco. Morava em São Paulo, a dona Dina, é só o que retive com certeza.

Não me lembro de mais nada sobre ela – a não ser que usava o cabelo preso num coque e falava alto, muito alto. A bem dizer, dona Dina gritava mesmo. Ouvíamos de longe dona Dina dobrar a esquina quando nos vinha visitar. Gritava tanto que virou uma metáfora lá em casa. Quando alguém perdia a paciência e elevava a voz, sempre aparecia um outro que alertava: “Ih, chegou a dona Dina?”.

A avó do metrô fez mais que me trazer à lembrança essa figura folclórica. Me expôs sem intermediários uma constatação espantosa. Agora que minha mãe e suas irmãs já morreram, não tenho mais fontes de pesquisa. Não temos na família as anotações maravilhosas que ligam o netinho caçula a um tataravô que serviu o segundo império. Sabemos que vieram todos os ancestrais lá do interior de Pernambuco, mas como chegaram lá, mistério.

A salada de sobrenomes – Viana, Araújo e Lopes – não deixa dúvidas sobre alguma origem lusitana, mesmo que distante. Aqui e ali, alguém tira a poeira da história de uma bisavó índia que foi caçada por brancos cruéis – mas já li narrativas assim nas famílias de outros pessoas. Tudo começa a se esfumaçar e assim seguimos fazendo nossa própria trajetória.

Dona Dina, em breve, não será sequer um verbete em minha memória. Espalhadas por aí, ficarão suas frases gritadas a plenos pulmões, uma espécie de anti-João Gilberto na teoria e na prática. Do João, pra mim, ficam os discos, os vídeos e as lembranças dos tantos shows dele a que pude assistir.

Minha bagagem sonora fica assim, misturando João com Elis, Nara com Jagger, Chico com Sinatra, Noel com Caetano, Bethânia com Cecilia. E ali, no setor da infância, um pouco de Luiz Gonzaga, os acordes da Banda e os gritos da Dona Dina. O compartimento das nossas sonoridades pessoais é infinito e cheio dos truques.

 

Parado na Parada

Domingo, ancorei o corpinho na ilha em frente ao Conjunto Nacional, achei uma gradinha de jeito e ali fiquei, do meio-dia até as 16h30, mais ou menos. Consegui comprar uma garrafa de água mineral e vi passar diante de mim boa parte das cerca de 3 milhões de pessoas que vieram conferir o que é que a Parada tem. Entre paulistanos e turistas, deixaram milhões de reais nos cofres de hotéis, restaurantes, bares, baladas e inferninhos. Não é pouca coisa. Tanto que o prefeito deu um “alô, queridos” – tem que fazer cafuné em tanto eleitor potencial, já bem ensinava Marta Suplicy (que, por sinal, estava lá também).

Ninguém vai à Parada tentando avistar seu político de estimação. Mal dá pra ver os artistas que se apresentam nos trios elétricos. Mas não deixa de ser bom ver que alguém do poder executivo entende a importância desse evento. Na quinta-feira, o presidente foi se exibir na Marcha pra Jesus – o que, sinceramente, acho legal, porque cristão também é filho de Deus – e pisou na bola ao desprezar a Parada. É muito tenebroso ver que o sujeito que colocaram lá em Brasília insiste em dividir o país entre “nós” versus “eles”.  O bom é que a Parada e a Marcha pra Jesus  se garantem com seus públicos, sem depender de personalidades.

É claro que é bom ver gente famosa nos trios, é muito legal ouvir a Iza, o Lulu e outros artistas. Também é ótimo ver que algumas empresas reconhecem o impacto do pink money – Uber, Avon, Amstel e Burger King, que distribuiu desde quinta-feira o campeão dos brindes, uma coroa de papel que parecia ser de uso obrigatório. Pela avenida, ao longo da semana, o comércio já tentava adular Ls, Gs, Bs, Ts, Is e Xs. Até loja conhecida

por apoiar um presidente conservador tascou o arco-íris nas suas vitrines. O poder público tem que correr atrás dos comerciantes.

A parada, em si, também teve algo diferente dos últimos anos. Parece que perdeu o caráter folclórico. Senti que havia menos gente curiosa em ver as bichas. Havia gays, lésbicas, travas, trans e todo o cardápio da diversidade sexual felizes por estar desfilando na Paulista. Havia gente que nunca tinha pisado ali antes e ficava boquiaberta com os prédios. Havia casal se beijando, outros se paquerando, havia – claro – os curiosos. Mas o foco, desta vez, parece que era o tal do orgulho LGBTTI+.

Está certo que muita gente foi lá só pra cantar, paquerar, beijar muita boca e tomar vinho químico. Alguns foram pra roubar celular, também. Mas o clima geral era de festa e de revide às provocações conservadoras do ilustre inquilino do Planalto. Aqui e ali apareciam faixas e cartazes contra o governo, um troco pelo declarado desprezo oficial. E de vez em quando alguém puxava o coro do “Ei, Bolsonaro…” e a galera completava, animada. Mas mandar alguém tomar no cu em uma grande festa gay não deveria parecer xingamento. Precisa ver isso aí.

O menino e a mulher perigosa

As duas histórias correram paralelas nas últimas semanas, mas sem levantar a mesma fervura nas redes sociais. Ambas tinham como protagonista um menino – um de verdade e outro, tratado assim por meio mundo. E as antagonistas eram mulheres teoricamente programadas para o amor, mas que escaparam do figurino. A vida real saiu dos moldes. Num caso, virou tragédia escabrosa. No outro, uma farsa temperada com arrogância, machismo e sede de likes.

Rhuan e Neymar tiveram uma fugaz contemporaneidade nas páginas dos jornais. Nem ocuparam a mesma editoria. O caso do jogador que importou a amante que, dias depois, o acusaria de estupro despertou paixões. Homens e mulheres lotaram as nuvens com opiniões radicais, demolindo ora um, ora outra, como se a Paz Mundial sonhada por todas as misses dependesse disso. A triste história do menino que foi morto e esquartejado pela própria mãe demorou pra comover.

Em algum momento, achei que essa pouca atenção se devesse justamente à monstruosidade da trama. O que mais se pode dizer sobre Rhuan? Errado desde o nome registrado na certidão de nascimento, era um menino do Acre, a mãe não fazia stories no Insta e o universo em que eles viviam estavam longe dos bacanas do Face – se bem que, para a imensa maioria, uma viagem a Paris, com hospedagem no Sofitel e noitada com um astro também sejam delírio ficcional. Mas sonhar com Paris é sempre muito mais bacana que vislumbrar uma rua de terra no interior do Acre.

Neymar, que parece ter dificuldades de relacionamento, já que precisa levar uma desconhecida do Brasil pra França só por uma noitada de luxúria, acabou protegido pela fórmula que iguala machismo e celebridade. Não se discute se ele foi violento ou não com a moça, mas levanta-se a hipótese de ela não bater bem da cabeça – já que moralmente a moça nem pontua, mulher afoita, capaz de deixar o filho aqui e ir ter uma noite de prazer com um famoso do outro lado do mundo. (Favor ler com a devida ironia). O caso Neymar está se resolvendo por conta própria.

Rhuan poderia ter escapado da morte caso as leis fossem seguidas. O pai do garoto chegou a pedir sua guarda, iniciou uma busca infrutífera pelas redes sociais – quem vai prestar atenção num moleque pobre do Acre quando o menino de ouro da Seleção aprontou mais uma traquinagem? A mãe do garoto fugiu com uma companheira e sua filha. Tomou rumo ignorado e tudo poderia continuar assim. Um casal de duas mulheres, um casal de filhos, quem haveria de se meter?

Acontece que a mãe de Rhuan demonstrou ter problemas mais profundos. Castrou literalmente o filho e, algum tempo depois, matou-o a facadas. Só isso já seria suficiente para alimentar um noticiário escabroso nos programas vespertinos da TV. Ela fez mais, esquartejou o filho, a quem dizia odiar, e tentou se desfazer do corpo. Diante da tragédia real, a mãe de “Uma canção desnaturada”, de Chico Buarque, é a fada madrinha de Pinóquio .

Ao contrário da história da menina que acusa o jogador de estupro, é a triste sina de Rhuan que deixa mais perguntas no ar. Se odiava tanto o menino, por que a mãe o arrastou por vários cantos do Brasil? Não seria mais fácil deixar o passado pra trás, o menino criado por um pai sobre o qual sabemos pouco? Como era a vida desse menino, proibido de ir à escola e brincar com outros meninos? Teve tempo de preferir um doce a outro, de cultivar um herói na TV, até mesmo de torcer pelos jogos da Seleção? De quem será que ele gostava mais: do Gabriel Jesus ou do Neymar? Talvez a trajetória dos dois tenha se cruzado nesse ponto.

Catatau e Zé Colméia

Não se pode perguntar certas coisas quando a pessoa está saindo de uma esteira na academia. Tudo ganha ares de profundidade. Hoje, por exemplo, alguém citou um desenho animado que eu não conhecia. “Não?!”, espantou-se o meu colega. “Qual desenho animado marcou sua infância?” A questão calou fundo.

Primeiro, tive medo de responder alguma coisa que me fizesse ser colocado diretamente na prateleira dos “vovôs da TV a lenha”. Mas acredito que clássico é clássico e, por isso, mandei logo um “Zé Colméia, Catatau e o Leão da Montanha”. Quem viveu aqueles anos dourados da TV preto e branco certamente se divertia com a “saída pela esquerda” do puma bacaninha.

Catatau já era sinônimo de baixinho ou só ganhou esse conceito depois do desenho? Dúvidas, sempre dúvidas. E a gente sempre torcia pro Zé Colméia roubar a cesta de piqueniques – aliás, a gente também queria passar a mão naquela cesta cheia de delícias imaginárias.

Tinha Lippy e Hardy, o leão otimista e a hiena deprê. Naqueles anos, ninguém tinha medo de expor crianças a um personagem pessimista, depressivo, pra baixo. Isso não afetaria ninguém, acho eu. E saber que um animal conhecido por rir histericamente virar um personagem jururu era sensacional. E todo mundo tinha na família um tio que sempre via o pior de tudo na vida.

Cabong! Alguém lembra do grito de guerra do Pepe Legal e seu fiel assistente, o Babalu? Ei, Ba-ba-lu! Outro que eu adorava era o Wally Gator, o crocodilo que infernizava a vida do Senhor Twittle. O baixinho enfezado era um clássico dos desenhos, ao lado dos protagonistas. Quem não lembra do baixinho que sofria o diabo em qualquer aventura da Pantera Cor-de-Rosa?

As dublagens eram perfeitas e fica impossível imaginar aqueles desenhos sem aquelas vozes. Tente colocar outro som na turma do Manda-Chuva. O Batatinha! O Bacana! Aqueles gatos vira-latas que viviam do jeito que todo moleque queria viver. Já adulto, alguém descobriu que o Batatinha era uma versão fofa do José Sarney de terno branco. Quebrou o clima.

Ah, e como não lembrar da turma do Pernalonga? O Patolino! Um dia, fazendo um trabalho de escola, fomos – o Luciano e eu – entrevistar um bombeiro, acho. Ele falou algo relacionado a coelho e os dois moleques, na frente dele, começaram “Coelho! Pato! Coelho! Pato! Pato! Coelho! Atire no pato, atire no pato!” – e caímos na gargalhada. O entrevistado não entendeu nada, coitado.

Conforme fui crescendo, fui me aproximando mais de Bip Bip e Coyote. Rolou uma identificação com aquele bicho atrapalhado, que fez a fortuna da Acme e nunca conseguiu catar uma pena do pássaro chato. Quando estive a trabalho no Arizona, passei por uma região que – anunciavam os cartazes – era território do road runner, o pássaro que inspirou o desenho. Não consegui avistar nenhum. Ainda bem, não havia lojas da Acme nas redondezas – aliás, pensando agora, como o Coyote conseguia comprar aqueles produtos e receber tão rapidamente?

Também tentei lembrar qual o primeiro desenho que vi, bem pequeno, na TV. Teria sido o Picapau? Ou o Popeye – pasmem, ainda em inglês, sem legendas nem dublagens! Havia também uns desenhos musicais, em que a letra era marcada por uma bolinha. Teoricamente, era pra gente cantar junto. Estavam nos preparando para os karaokês!

Acho que estou voltando demais no tempo. Desenho sem dublagem, personagens que caíram no esquecimento… Melhor parar. Mais um pouco e eu chego nas pinturas rupestres.