Quitéria, 79

Ainda na cama,  fiz as contas. Se estivesse viva, minha mãe estaria completando 79 anos hoje. Nunca pensei nela como uma senhorinha de quase 80. Ela cristalizou com os cabelos tingidamente castanhos, a pele com razoável brilho e elasticidade, ainda na flor dos 65, que foi a idade com que morreu. Pensando bem, era nova. Sacanagem dos efeitos secundários da diabetes que todo o ramo materno carrega e transmite pros os descendentes.  Foi assim, a gente lamenta, mas não tem como lutar contra.

Na pia batismal, dona Quitéria era Lurdes e assim foi até 1958, ao casar-se com o rapagão que viria a ser meu pai. O escrivão do cartório avisou que a noiva precisava mudar o documento – e ele mesmo deu entrada nas coisas. Onde havia Lurdes nasceu Quitéria e, dali em diante, minha mãe tinha o nome com que era conhecida na família toda e o outro, o oficial, que aparecia em seus documentos. Pra coitada se aposentar foi um deus nos acuda – a certidão de nascimento não batia com a do casamento…

Meus pais nasceram num lugarejo até hoje pequeno do Agreste pernambucano. De grande ali perto, só Garanhuns – onde havia um colégio de freiras no final dos anos 40. Da janela de sua casa na praça principal, a pequena Lurdes morria de vontade de usar os uniformes das alunas do colégio. Minha avó – a Quitéria original – cortou a onda, não ia deixar a filha dela se aventurar 30 quilômetros adiante. “Se não fosse por isso, eu teria estudado”, lamentou ela uma vez.

Numa outra ocasião, conversando sobre o período em que meu irmão caçula e eu éramos pequenos, lembrei que meu pai nunca foi muito de passear com os filhos. Fui desmentido por d. Quitéria. Ele só nos levava na garupa da bicicleta quando tinha sobrado algum troco do salário recebido na tecelagem do Brás. Quando a grana murchava, ele tinha vergonha de não poder comprar algum doce pra gente. Vergonha! Foi essa a palavra.

Durante os quase 20 anos em que viveram casados, meu pai era o Supremo Provedor. Minha mãe fazia uns bicos – bordava roupas de cambraia para bebês, encomendadas por uma loja da Rua da Consolação. Só quando ficou viúva, aos 36 anos e com dois filhos menores de idade, foi que minha mãe saiu de casa para colocar comida na mesa. Foi sua primeira ida sozinha a um supermercado, sem a tutela do marido.

A pensão do INSS era mirrada. Na floricultura de uma tia, ela apanhava pacotes de rosa, fazia pequenos ramalhetes e saía pelas ruas, vendendo de porta em porta. Os espinhos sangravam os braços, mas o que exigia muito dela era vencer a timidez e oferecer flores a estranhos. Foi um período curto, mas marcou minha lembrança. Até hoje, quando vejo uma mulher vendendo coisas na rua, imagino uma dona de casa sem marido e com filhos pra sustentar. Pode ser uma guerreira de verdade e não dessas que sobem no pódium porque conseguiram desconto na loja de grife.

Minha mãe morreu no meio da Copa do Mundo de 2006. No velório, um primo apareceu com uniforme da Seleção e não se pode negar que foi notado. A missa de sétimo dia foi marcada por minhas tias – hoje também já falecidas – bem no horário de um jogo do Brasil contra o Japão (ganhamos de 4 a 1). Na qualidade de primogênito, fiz mudar. A pobre Quitéria não merecia ficar com zero de Ibope. Já bastava não poder usar o uniforme do colégio das freiras.

Minha mãe não teve tempo de ficar velhinha. Conheceu os três netos, produzidos por meu irmão e sua então mulher. Mas não chegou a se encontrar com a pequena Laura, sua bisneta. É assim. A vida segue.

 

 

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Autor:

Dramaturgo, autor-roteirista de novelas, cronista, jornalista. Paulistano.

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